Sabado, 19 de SETEMBRO de 2020

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Crise do coronavírus

Jornalista mais premiado da região faz relato sobre filho na CTI

por por Herculano Barreto Filho | UOL | Publicada em 20/08/2020 às 00h| Atualizada em 31/08/2020 às 15h12

Herculano Barreto Filho, o jornalista mais premiado da história da região ( venceu o Prêmio Esso 2007), que está na linha de frente da cobertura da COVID-19 pelo UOL, maior empresa de conteúdo e serviços digitais do Brasil, como o Diário de Viamão/Seguinte: contou na entrevista Herculano, ao ’front da guerra’ no epicentro do contágio no Brasil, fez um relato tocante de sua estadia com o filho de 6 anos internado em um hospital do Rio de Janeiro. Siga o artigo Pai acompanha filho em CTI: 'Não há máscara que nos proteja completamente.

 

Ela segue no ar, como todas as outras coisas. Ela se mistura e se espalha pelos ônibus. Mas segue por um itinerário sem ponto final. Ela vira estatística, cifra, vira cifrão. Também vira frase feita. "A economia não pode parar". "O novo normal". Mas sem novo e sem normal. "Isso nunca vai acontecer comigo". Até que acontece porque é quase inevitável.

Corre pelo ar e segue um itinerário, percorrendo corpos. Sem ponto de chegada, é bem possível que corra pelas minhas veias. Ô motorista, pare o ônibus que quero descer. Fugir desse novo normal. Sem máscara, sem partido, mito ou religião. Como um deus ao contrário, a covid me tocou. Em nome do pai, do filho e dentro do meu espírito. O repórter que se distancia da história para poder relatar os fatos é contaminado porque não há máscara que nos proteja completamente. Ele agora se torna mais um personagem da pandemia que tirou mais de 100 mil vidas.

Estou em um hospital do Rio de Janeiro. Na noite anterior, meu pai grava uma mensagem de áudio para dizer que tudo vai ficar bem. Mas a mensagem engasga em choro. Isolada em casa com a covid e dois dos nossos filhos, minha esposa pede por informações. Os leitos são separados apenas por cortinas azuis. Ao lado, sinto o hálito do vírus: uma mãe segura o filho no colo. Arrasto a minha cadeira para frente, em busca de uma proteção que o hospital não oferece.

Na parede, o número em um aparelho indica o oxigênio no sangue do meu filho de 6 anos. Manchas avermelhadas desaparecem e voltam a surgir. É o mapa do vírus no corpo dele. Durmo. Meu espírito desperta na madrugada, com os gritos de choro. "Me ajuda", repete. A enfermeira vem. Ele bebe água, segura na minha mão e volta a dormir. Eu não. #EuNão #EuSim. Em seguida, o meu filho tenta tirar a máscara de oxigênio do rosto. Eu a recoloco. Ele balança a cabeça e se agita. Passo os dedos pelos seus cabelos e o acalmo, dizendo. "O papai tá aqui. A gente já vai voltar pra casa. Falta pouco". Ele dá um gemido, como quem quer dizer que está ouvindo, e sacode a cabeça.

No CTI, ouço uma sinfonia sem melodia, mas afinada. Parecem harpas só com batimentos cardíacos de oito leitos. Mas sem orações. Em uma madrugada com luzes brancas no teto, uma mãe descansa debruçada aos pés da cama da filha de uns 4 anos. Já são 7h. Mas não dá pra diferenciar a noite do dia. Sem dedos ou matéria, a covid me tocou.

Cristiano Abreu

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