Sabado, 10 de ABRIL de 2021

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Especial

Um ano de Agonia | Aumento de leitos e dedicação redobrada: a luta pela vida no Hospital Viamão

por Cristiano Abeu | Publicada em 23/03/2021 às 00h| Atualizada em 05/04/2021 às 18h22

Segunda reportagem da série detalha esforços para atender pacientes internados no HV

 

Na casa de Saúde que leva o nome do município, seja na tenda de triagem, na emergência, na UTI ou mesmo no almoxarifado, a COVID-19 domina ações e pensamentos. E não há como ser diferente, a bem da verdade, nunca houve. Antes mesmo de assumir crescimento exponencial, quando o coronavírus ainda era chamado de “novo”, dirigentes e profissionais já sabiam que momentos difíceis se avizinhavam.

Um ano depois, o único hospital da cidade é retrato do momento atual da pandemia. Existem mais leitos, ainda mais dedicação das equipes, mas também mais pacientes. E enquanto os números de ocupação aumentam, a crise no fornecimento de equipamentos de proteção, de materiais e até de medicamentos prejudica o trabalho dos profissionais e ameaça a luta dos pacientes pela vida.

Quando não é a incapacidade de produção dos laboratórios, o inimigo é o aumento de preços. Substâncias usadas na intubação de pacientes têm variação de preços de até 1000% na comparação com o período anterior à pandemia. Quem alerta é diretor técnico do Hospital Viamão (HV) João Almir Camargo Jorge:

- Todo mês há uma majoração. Isso torna inviável a operação de qualquer hospital. Em luvas, em máscaras, em tudo. Os bloqueadores neuromusculares mais usados desapareceram, só o mais caro está disponível, e cada vez mais caro – afirmou.

 

João Almir responde pelo HV

 

Não é de hoje que o risco de ficar sem medicamentos para intubação preocupa a direção do HV. De acordo com Camargo Jorge, os problemas de abastecimento iniciaram em julho de 2020. Na época, a saída foi suspender todas as cirurgias eletivas e improvisar com a aplicação de drogas de menor potencial, o que reduz a qualidade do atendimento ao paciente, ressalta o diretor.

Nesta terça-feira (23), o governo do Estado enviou ao hospital local 590 ampolas de uma das categorias de anestésicos utilizadas. Contudo, a quantidade é suficiente para suprir a demanda de apenas 36 horas.
É o mesmo que uma gota de água no deserto.

Se é possível adotar plano B para os medicamentos, o mesmo não se pode fazer para garantir que os pacientes respirem. A casa de Saúde conta com 30 ventiladores mecânicos, porém 22 estavam em operação nesta terça-feira. Este é o maior número em uso desde o início da pandemia, conforme a direção do hospital.

Há também, embora em tom mais moderado, preocupação com o abastecimento de oxigênio. A crise de distribuição que afeta todo o país avança e pode causar impacto nos próximos meses. E é necessário lembrar que a maioria dos internações por COVID-19 ocorre por comprometimento da capacidade pulmonar, ou seja: mesmo o paciente não intubado necessita de suporte externo para respirar.

 

Leitos

 

Imagem: André Flores | Instituto de Cardiologia

 

Para fazer frente ao vírus, o HV recebeu suporte financeiro dos governos federal e gaúcho, e recentemente firmou convênio com a Prefeitura. Todos os eforços nos últimos 12 meses foram centrados na ampliação da capacidade de atendimento.

Em junho de 2020, o governo do RS inaugurou dez leitos, ampliando de cinco para 15 as vagas de UTI destinadas ao tratamento de vítimas da COVID-19. A estrutura garantiu fôlego durante a primeira onda de contágio do vírus, permitindo que pacientes com outras enfermidades continuassem a  receber atenção médica no município. Porém, os leitos de UTI geral (15) em nenhum momento deixaram de ser ocupados para tratamento do corona.

Na soma entre UTI geral e COVID, a ocupação extrapolou os 100% de capacidade em diversas ocasiões em 2020. Por duas vezes, em julho de 2020 e em janeiro deste ano, a emergência do hospital foi fechada por conta da superlotação.

O quadro se agravou desde a segunda quinzena de fevereiro deste ano e a lotação bateu os 383%. Hoje, mesmo com mais leitos, está em 98%, quando o recomendado seria manter abaixo dos 70%.

 

 

Por um ano, havia apenas 12 vagas fora de UTI em Viamão. Neste mês, convênio com a Prefeitura viabilizou mais 40. Para colocar a ampliação dos chamados leitos clínicos em prática, a maternidade foi desativada, de modo temporário, é o que dizem HV e Administração municipal. Até a normalização prometida no fechamento, para nascer, os viamonenses serão encaminhados para Alvorada.

 

 

Desafogar a emergência é outra estratégia em prática. Nesta semana, direção do HV e Prefeitura assinaram convênio para a criação de uma unidade básica junto ao hospital. A ideia é direcionar para a nova estrutura casos de urgência (fichas azul e verde), deixando o pronto atendimento para os pacientes graves. O modelo entrará em operação em até 30 dias.

 

Suor, choro e dedicação

 

O trabalho dos profissionais merece destaque. Dia e noite, equipe de médicos, técnicos, enfermeiros e apoio lutam pela vida dos pacientes.

- É uma dedicação extrema, que gera desgaste emocional. É comum vermos profissionais chorando agachados pelos corredores. Eles merecem reconhecimento da população, e sobretudo respeito – pede o diretor técnico do hospital.

 

Marcas

 

A luta de pessoas jovens pela vida marca o momento atual, na visão de Camargo Jorge.

- Tivemos um pico de casos em junho, julho e agosto (2020), com muitos pacientes internados por COVID-19, e a partir de fevereiro (2021), um novo aumento de casos. Mas o que vemos agora são jovens doentes, isso chama nossa atenção.

Atualmente uma menina menor de um ano de idade está entre os pacientes internados com coronavírus no município.

Outra situação marcante foi a internação e a perda do prefeito em exercício Valdir Jorge Elias, o Russinho, levado pela COVID-19.

- Sem dúvida, a morte do prefeito foi um momento extremamente triste. O Russinho era uma pessoa querida por todos, foi uma perda dura para nós – conta o diretor técnico.

 

Agradecimento

 

João Almir reconhece o apoio da comunidade ao Hospital Viamão como um dos pontos fortes na luta contra o corona.

- A comunidade sempre nos apoiou com campanhas de doações, reconhecendo o trabalho dos nossos profissionais – fechou o diretor.

 

Números de uma guerra

 

Viamão:

Casos confirmados: 6.387

Óbitos: 408

Internados em Viamão: 48

Internados em Porto Alegre: 19

Recuperados: 5.405

Fonte: secretarias municipal e estadual da Saúde

 

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Cristiano Abreu

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