Quinta-feira, 21 de OUTUBRO de 2021

Publicidade

Publicidade

Publicidade

Publicidade

Facebook

Série especial

IMAGEM: Arquivo DV | Divulgação/PMV

Um ano sem Russinho | O início da queda – os elos se fecham

por Cristiano Abreu | Publicada em 23/07/2021 às 00h| Atualizada em 05/08/2021 às 14h02

Aquele 22 de julho de 2020 foi um lamentável epílogo. Consequência natural de uma série de acontecimentos que seguiram curso sem que ninguém interferisse. Dependendo do ponto de vista, a morte de Valdir Jorge Elias referenda, ou desafia, a terceira lei universal de Newton: a partida prematura do prefeito em exercício de Viamão, aos 66 anos, foi produzida por ação ou pela falta dela?
A reação, desejada ou não, todos conhecemos.

A tempestade política que devastou a Administração André Pacheco, em fevereiro de 2020, botou Russinho na cadeira tão desejada por ele. E é praticamente inegável que tal fato contribuiu para o desfecho trágico.

 

Primeiro elo fechado

 

Sem, aviso, do dia para a noite, Valdir Jorge Elias passou a comandar uma cidade abalada estruturalmente após a Operação Capital, a "Lava Jato de Viamão”. Russinho, que até então era mantido afastado de qualquer decisão administrativa, assumiu uma Prefeitura com a credibilidade abalada, e sem saber o que fazer.

– Não é segredo de ninguém. O próprio Diário de Viamão noticiou diversas vezes que o Russinho havia sido colocado numa mesa "debaixo de uma escada". Ele não tinha ideia do que acontecia na Administração. Depois que assumiu, era praticamente conduzido, assinava o que davam para ele assinar, na confiança – afirma um vereador do município, que pediu para não ser identificado.

Fato é que Russo não teve tempo de tomar pé da gestão e de cara teve que lidar com a pandemia do Coronavírus. O então prefeito, sem experiência no Executivo, sofreu pressão política, econômica e eleitoral. Se viu em meio a interesses corporativos, partidários e pessoais. Não bastasse, foi emparedado pelo Ministério Público, que tentava desatar as denúncias de corrupção envolvendo o antecessor.

Acabou engolido pela cadeira.

 

Segundo elo

 

Nas investigações que envolvem acidentes aéreos, os especialistas buscam identificar o que chamam de elos fechados – a cadeia de fatos que resultam na queda. O segundo elo de Russinho foi selado quando ele precisou dividir atenção com a disputa eleitoral.

– Ele focou no que fazia de melhor: articulação política. Queria ser eleito prefeito nas urnas, e precisou disputar internamente a candidatura, e a buscar apoio fora do partido – recorda uma fonte ligada ao MDB, que também pediu para manter o nome em sigilo.

Nem Russinho, nem Sarico Moura, então presidente de honra da legenda, estão mais entre nós para confirmar ou negar. O que jornalisticamente é possível remontar deste período é que o prefeito em exercício botou o nome na rua e saiu em pré-campanha. Apesar da pandemia assustar o mundo, Russo conferiu e promoveu inauguração de obras, visitou apoiadores e ofereceu jantar para a nata da política local em luxuoso espaço de eventos da Velha Capital.
Mesmo sendo diabético e lidando com crises de pressão arterial.

O DV, na promoção do debate jornalístico que lhe competia, registrou parte dos fatos listados acima. Em março, aglomeração para lançamento da pré-candidatura. Em abril, o polêmico jantar com um comerciante famoso da cidade, no qual teve abraços e fotos sem máscara.

Nem o gabinete foi poupado. Em 9 de julho, a sede do poder Executivo viamonense recebeu um encontro eleitoral: Russinho e religiosos discutiram apoio. Ao fim da visita, fizeram orações pelo prefeito. Braços erguidos a centímetros dos rostos, máscaras frouxas ou penduradas em uma das orelhas, voz alta, mãos tocando a mesa, narizes para fora da proteção. Havia de tudo um pouco na equivocada cena divulgada em fotos oficiais da aglomeração.

Uma semana depois, Russinho foi internado com COVID-19.
Era o terceiro elo.

 

 

Encontro elitoral/religioso dias antes da internação é um dos símbolos trágicos da morte de Russinho - IMAGEM: Divulgação/PMV - Arquivo DV

 

Corrente

 

A corrente ficou completa quando a política forçou o prefeito a ficar no cargo.

– Ele já era o interino. Se se afastasse, a Prefeitura ficaria paralisada. E mudaria todo o cenário da eleição – destaca uma fonte ligada à Câmara de Vereadores na época e que pede para não ter o nome citado.

Sem André Pacheco, um eventual afastamento de Russinho forçaria a transmissão do cargo de prefeito ao presidente do Legislativo, que era Dilamar Jesus (PSB). Mas aí, ele não poderia concorrer a vereador.

– Ele (Dilamar) não queria de jeito nenhum. Estaria impedido de concorrer. Não dá para esquecer que era julho, e o primeiro afastamento do André ia só até agosto – lembra a fonte do DV.

 Quem lembra dos acontecimentos após a morte de Russinho se põe a pensar. Fato é que mesmo internado, apesar das recomendações médicas, o prefeito seguiu trabalhando.
Enquanto teve forças, fez da UTI do Hospital Viamão uma extensão do “Palacinho”.

– Acredito que o momento e a forma como ele (Russinho) foi conduzido ao cargo de prefeito prejudicaram muito a saúde dele, que acabou por pegar COVID-19 – entende o ex-diretor administrativo da Prefeitura, Paulo Quintana, o Paloma.

– O pai gostava de trabalhar. Na última noite antes de ir para o hospital, ainda sem saber do resultado positivo para COVID-19, pedia que o ajudasse a respirar, para que pudesse ficar em casa – revela Bruna Elias, uma das filhas.

O contexto político de Viamão na semana em que Russinho ficou internado faz dessa uma trama suscetível para teorias - algumas conspiratórias.

E é o que vamos ver na próxima reportagem da série.

 

Leia também

Um ano sem Russinho | Dor e conspiração

Série de reportagens relembra vida, trajetória política e morte do prefeito de Viamão levado pela COVID-19

Cristiano Abreu

Redação, sugestão de pautas e redes sociais
51 9 9962 3023
[email protected]

Rafael Martinelli

Editor
[email protected]

Roberto Gomes

Diretor
[email protected]

Ao reproduzir uma de nossas matérias, é ético citar a fonte.
As opiniões assinadas são de responsabilidade de seus autores e não representam a posição do jornal.
Desenvolvido por i3Web.
2016 - Todos os direitos reservados.

Rua Osvaldo Aranha, 43 - Sala 5 - 94410-630 - Centro - Viamão - RS