Quinta-feira, 01 de OUTUBRO de 2020

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opinião

Jeniffer e Marcel vivem tragédia da perda de Theo, que comoveu Gravataí

Mãe que perde bebê em hospital sempre tem razão; é preciso respostas

por Rafael Martinelli | Publicada em 03/03/2020 às 11h14| Atualizada em 04/03/2020 às 10h25

Uma mãe que perde um filho por complicações durante o parto, dentro de um hospital, sempre tem razão em sua revolta.

Os protocolos, municipais, estaduais, nacionais e internacionais podem explicar tecnicamente o atendimento, o corporativismo da categoria pode blindar eventuais falhas, mas jamais silenciar o grito de indignação, salgado em lágrimas e compartilhado por tanta gente com o casal Jeniffer Gabriela de Lima, 22 anos, e Marcel Paulo Peçanha, 34 anos.

É justa – e que leve a respostas, e provoque conseqüências práticas – a comoção, que começou nas redes sociais sábado, teve o ápice em um protesto no domingo em frente à Santa Casa de Gravataí e, nesta segunda, chegou à Polícia, ao Conselho Tutelar e ao Ministério Público.

Theo não resistiu e faleceu na madrugada de sexta após a mãe, com nove meses de gestação, enfrentar 27 horas em trabalho de parto, como detalha a reportagem Possível negligência na morte de bebê em parto no Dom João Becker é apurada pela polícia, de Eduardo Torres, publicada pelo CG.

– Tiraram esse sonho de mim. Era a minha vida e eu não consegui nem pegar o meu filho no colo. Meu bebê morreu por causa de um médico que não quis fazer a cesariana – desabafou pelas redes sociais a moradora do bairro Neópolis, que havia completado 41 semanas de gestação quando, na última quarta, procurou o Hospital Conceição, em Porto Alegre.

Jeniffer foi atendida, mas comunicada de que o parto deveria ser feito em Gravataí. No começo da madrugada de quinta, foi internada no Dom João Becker.

– Passaram dois plantões sem nenhum problema. Eles estavam medicando a Jeniffer e acompanhando o bebê, até que aconteceu a troca para o terceiro plantão e ela não aguentava mais de dor. Mesmo assim, o médico se negou a fazer a cesariana, pelo SUS ou particular, porque nós falamos que pagaríamos – disse o pai, à reportagem.

A família acusa o hospital de negligência. Em nota oficial, a Santa Casa de Misericórdia assegurou que “todos os protocolos de atendimento assistencial foram prestados de acordo com o estabelecido pelos órgãos municipal, estadual e federal de saúde. Entretanto, a instituição registra a sua solidariedade com a família neste momento de dor e está à disposição para esclarecimentos junto aos familiares e autoridades competentes”.

– Ainda é cedo para determinarmos se houve negligência ou uma fatalidade. Primeiro, queremos ouvir a mãe, ter acesso a toda a documentação, ao prontuário médico e também ouvirmos a equipe que atendeu à paciente – disse ao jornalista o delegado Márcio Zachello, da 1ª DP, que, caso comprove a falha no atendimento, pode indiciar os responsáveis por homicídio culposo.

A Santa Casa abriu apuração interna, que será acompanhada pela Prefeitura, que é a gestora do SUS em Gravataí. De acordo com a direção daquele que é o único hospital do município, este é o procedimento padrão em casos de mortes materno-infantis.

A Secretaria Municipal da Saúde também divulgou nota, na tarde desta segunda. Reproduzo e depois concluo:

“Em virtude das manifestações ocorridas no final de semana (29 de fevereiro e 1º de março), a Prefeitura Municipal de Gravataí, por meio da Secretaria Municipal da Saúde (SMS), esclarece que acompanha qualquer óbito infantil (crianças com idade abaixo de um ano)”.

Segue: “tal acompanhamento ocorre por meio do Comitê de Redução de Mortalidade Materna, Infantil e Fetal (COREMMIF), que conta com uma equipe de profissionais multidisciplinar e intersetorial. O objetivo do comitê é analisar as situações em que ocorreram os óbitos para verificar os aspectos de prevenção e corresponsabilização junto à rede assistencial materno infantil de serviços disponíveis”.

Continua: “a análise de todos os casos inclui: avaliação do prontuário ambulatorial e hospitalar, entrevista domiciliar com pacientes e discussão das informações em reunião do comitê, que é de caráter educativo, propositivo, não coercitivo ou punitivo, sigiloso nos limites éticos - com a finalidade de apontar medidas de intervenção para a redução destes óbitos”. 

Acrescenta: “especificamente sobre as manifestações deste último final de semana, com relação ao caso do natimorto (o bebê Théo), o município aguarda retorno do Hospital Dom João Becker para acessar o prontuário, e, após, realizar demais ações do COREMMIF. Caso verificada a conduta inadequada de algum profissional ou da pessoa jurídica, neste caso o hospital, todas as medidas legais cabíveis para responsabilização dos agentes envolvidos serão tomadas”.

E conclui: “a Secretaria Municipal da Saúde se soma a família neste momento de dor e tristeza e externa seu profundo pesar pela perda”.

Sigo eu.

O clima no hospital é o pior possível. Profissionais estão abalados.

Gravataí vive dias de luto e indignação. Uma criança esperada com amor não nasceu. Dentro de um hospital. Em momentos como esse, recomenda-se prudência ao expor supostos culpados ao linchamento nas redes sociais, e ao risco de justiçamentos reais.

Ao fim, é preciso respostas.

Não pelo Facebook, mas em inquérito policial e sindicância com documentos públicos.

Tragédias assim não ‘acontecem’ simplesmente.

Cristiano Abreu

Redação, sugestão de pautas e redes sociais
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