O estudo que fez Estado prorrogar para o dia 30 abertura do comércio; Viamão teria 15 vezes mais casos

Foto: Gustavo Mansur / Palácio Piratini

O governador Eduardo Leite anunciou nesta tarde (15) a prorrogação até 30 de abril das restrições para funcionamento do comércio na Região Metropolitana e Serra. No interior, a decisão – e a responsabilidade dos eventuais casos – será das prefeituras.

Agora cabe ao prefeito Russinho se adequar ao calendário e restrições previstas no decreto estadual 55.177, que prevê também até o dia 30 a suspensão das aulas em escolas públicas e particulares de todo Estado.

Um estudo inédito, que estima que o RS tenha 5.650 pessoas infectadas pela COVID-19, foi decisivo para manter as portas dos comércios fechadas. O resultado da pesquisa de prevalência da doença entre os gaúchos aponta que há um caso a cada 2 mil habitantes.

Aplicando a pesquisa em Viamão, seriam 195 e não somente 13 casos confirmados. A média da pesquisa corresponde à metade do '1 para 30', usado por especialistas, como Margareth Dalcomo, peneumologista da Fiocruz e a principal referência da área no Brasil, e tratei no artigo Os milhares de Viamão que estão no grupo de risco da COVID 19; teste se você escapa.

A primeira etapa da pesquisa por amostragem para projetar o percentual da população do Rio Grande do Sul infectada pelo novo coronavírus leva em conta o resultado de 4.189 testes aplicados em nove cidades de diferentes regiões e apontam para uma relação de um caso para cada grupo de 2 mil habitantes.

O estudo encomendado pelo governo do Estado e coordenado pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel) terá outras três fases com o objetivo de identificar a prevalência da Covid-19 e projetar incidência de casos mais graves e até o grau de letalidade da doença.

Dos testes aplicados entre sábado (11/4) e segunda-feira (13/4), dois casos deram positivo para a COVID-19, o que representa 0,05%.

As nove cidades onde foram realizadas as coletas, incluindo Porto Alegre, representam 31% da população gaúcha (11,3 milhões de habitantes). O estudo reflete uma realidade do avanço da doença de duas semanas atrás.

A pesquisa mostra também que, para cada diagnóstico do coronavírus nesses municípios, existem outros quatro casos não notificados. Na virada do mês, o RS tinha 389 casos confirmados (em 1°/4). Pelo último boletim, o Estado já registra 747 pessoas com a doença, com 19 óbitos (dados da Secretaria da Saúde até 14h desta quarta, dia 15/4).

– Mesmo sendo números preliminares de uma primeira etapa de pesquisa, os resultados demonstram claramente que as medidas de isolamento social estão sendo fundamentais em conter o ritmo do avanço – afirma o governador Eduardo Leite.

O governador aguardava as estimativas da pesquisa para, ao lado de outros indicadores, avaliar eventuais alterações nas determinações que restringem a movimentação de pessoas nas ruas.

– Não queremos perder ninguém, não interessa a idade. Não podemos admitir perder qualquer vida.

Responsável por coordenar o trabalho da epidemiologia do COVID-19, o reitor da UFPel, Pedro Curi Hallal, fez a divulgação dos resultados da pesquisa. Ele estabeleceu um comparativo sobre o comportamento da pandemia em outros países e a situação do RS retratada no estudo.

– A pesquisa ainda se baseia numa amostragem pequena, o que exige maior cuidado com interpretações sobre as estimativas. Nas próximas rodadas teremos um cenário mais claro.

Para Hallal, até agora, as políticas públicas adotadas se baseiam apenas na ponta do iceberg.

– Os casos que chegam ao sistema de saúde, que acabam sendo testados, especialmente as pessoas com sintomas mais graves, escondem todo o restante do iceberg que está submerso e que é tão necessário para enfrentarmos a epidemia de forma adequada.

O estudo vem mobilizando um grupo de especialistas de outras universidades federais e privadas do RS. A ideia surgiu nas discussões do Comitê de Análise de Dados sobre a pandemia, instituído há poucos dias pelo governador, e que tem no comando a secretária de Planejamento, Orçamento e Gestão, Leany Lemos.

– É importante reunirmos o maior volume de informações para que o governo defina suas ações com base em evidências científicas. Já vínhamos trabalhando com outros cenários estatísticos, mas estamos aprimorando o trabalho para melhor orientar a população – explica a secretária.

– Tomaremos decisões baseadas na ciência, não em suposições ou especulações. A partir desse estudo, poderemos alimentar projeções corretamente, e acompanharemos a evolução da epidemia, por meio da pesquisa, ao longo de dois meses.

O Ministério da Saúde enviou 20 mil kits para viabilizar a aplicação dos testes e já programa replicar o mesmo estudo no restante do país. A próxima etapa está prevista para ocorrer entre os dias 25 e 27 deste mês.

A pesquisa mobiliza uma rede de 11 universidades federais e privadas: Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA), Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (Unijuí), Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Universidade Federal do Pampa (Unipampa/Uruguaiana) e Universidade de Caxias do Sul (UCS), Imed Passo Fundo, Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS/Passo Fundo) e Universidade de Passo Fundo (UPF). O estudo tem um custo estimado em R$ 1 milhão e tem o apoio da Unimed Porto Alegre, do Instituto Cultural Floresta, também da capital gaúcha, e do Instituto Serrapilheira, do Rio de Janeiro.

Ao fim, não é só 'uma gripezinha'.

 

OS NÚMEROS

: Para cada 1 milhão de habitantes no RS, estima-se que existam 500 infectados reais, 65 notificados e 1,2 óbito.

: Para cada caso notificado nas nove cidades da pesquisa, existem cerca de quatro casos não notificados.

: No dia 1° de abril, o RS tinha 384 casos confirmados. O resultado da pesquisa demonstra que o contágio é 15 vezes o número de casos confirmados ou 11 vezes o número de casos coletados.

 

 

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