O terror na Palestina, visto por Hannah Arendt 

Filósofa alertava: busca de soberania absoluta afundaria o sonho judaíco – e poderia “balcanizar toda a região”. Um Estado totalitário formou-se em nome da autodefesa. A única saída para a paz, dizia ela, era uma cooperação que Israel sabotou. Recomendamos o artigo de Luciana Garcia de Oliveira, mestre no Programa de Estudos Judaicos e Árabes do Departamento de Letras Orientais da Universidade de São Paulo, publicado pelo Outras Palavras


Diante do trágico aumento da violência em Israel e nos territórios palestinos ocupados, caso Hannah Arendt estivesse viva e testemunhasse as ações militares ostensivas contra alvos palestinos, e, se por ventura, acompanhasse, de perto, a imagem internacional que Israel adquiriu com o passar do tempo, ela diria um sonoro: “Eu avisei!”.

É bem verdade que a divisão da Palestina, em novembro de 1947, e a construção de uma pátria judaica ocorreu em meio à fortes expectativas, por parte da comunidade judaica internacional ansiosa pela fundação de um lar nacional seguro. Por isso, tudo o que, possivelmente, viria acontecer após esse empreendimento, poderia se tornar um fato relevante na história judaica e, eventualmente, poderia conduzir a uma nova tragédia para o povo judeu do mundo inteiro.

Justamente por isso, Hannah Arendt reafirmou no artigo, Paz ou Armistício no Oriente Médio?, que a paz é essencial para o Estado de Israel e para o povo árabe. Contudo, diferentemente de um acordo de armistício, a paz só poderia ser fruto de negociações e de um compromisso mútuo entre judeus e árabes e não necessariamente de um programa vindo de fora.

O atual fracasso do sonho judaico e israelense, de acordo com Arendt, é resultado direto da separação da estrutura econômica regional entre os setores árabes e judaicos. A construção da pátria judaica foi baseada unicamente no empreendimento pioneiro da mão de obra judaica e no apoio financeiro da comunidade judaica da diáspora. Nesse passo, enquanto o apoio financeiro externo fosse garantido, a cooperação entre árabes e judeus fracassaria, exatamente como é observado nos dias de hoje. E, em seu lugar, vingaria um isolamento econômico e social parecido ao que Hannah Arendt associou à imagem de uma “planta estufa”. A insistência nacionalista em uma soberania absoluta de todo o território compreendido pela Palestina histórica vem conduzindo à um processo de “balcanização de toda a região” (2016, p. 730).

Em um outro artigo, Para Salvar a Pátria Judaica, Hannah Arendt considera o fato de que o sionismo obteve uma vitória significativa entre o povo judeu “no mesmo momento que suas conquistas na Palestina enfrentavam o mais grave perigo” (2016, p. 655). Embora a construção de uma pátria judaica fosse primordial para praticamente toda a comunidade judaica, nenhum judeu no mundo poderia continuar indiferente às ações violentas que já estava acontecendo na Palestina.

No fim dos anos de 1940 é constatado, por Arendt, um crescimento da utilização de métodos totalitários que, em algumas esferas, foram tolerados e até aplaudidos por autoridades judaicas e sionistas. E, diante de duas reivindicações irreconciliáveis, recorreu-se a uma decisão puramente militar, considerada como a mais viável para resolver o conflito. Foi a partir de então que os judeus, de um modo geral, passaram a acreditar e a apostar efetivamente que lutar a qualquer preço poderia ser um método possível para se fazer política em um ambiente hostil como o Oriente Médio.

Ocorre que Hannah Arendt já alertava sobre o perigo da unanimidade de opinião, enquanto “um fenômeno ameaçador e uma característica de nossa moderna era das massas” (2016, p. 658). Para ela, a massificação destrói a vida social e pessoal e reproduz manifestações de fanatismo e histeria. Típico comportamento adotado nos regimes totalitários.

A insistência na divisão entre judeus e os outros povos, classificados por eles como inimigos, é consequência de uma desastrosa política judaica e israelense estabelecida no Oriente Médio.

Os massacres, como o do vilarejo de Deir Yassin, e os ataques terroristas, como o realizado pelo grupo Irgun, quando jogaram “uma bomba em uma fila de trabalhadores árabes fora da refinaria de Haifa, um dos poucos lugares onde judeus e árabes havia trabalhado lado a lado por anos” (2016, p. 666), ambos em 1948, visavam, na visão de Arendt, unicamente a destruírem as relações cordiais de vizinhança entre árabes e judeus na Palestina. E, nesse aspecto, dificultar quaisquer iniciativas e possibilidades de negociações e diálogo.

Ao ignorar a presença árabe, os judeus optaram por um Estado totalitarista, dotado de uma força impiedosa. E, ao descartar o projeto idealizado pelo então reitor da Universidade Hebraica de Jerusalém, Judah L. Magnes, e, endossado por Hannah Arendt, de cooperação judaico-árabe, as expectativas judaicas por um Estado nacional e seguro passaram a estar condenadas. A terra, idealizada pela comunidade judaica ao redor do mundo, é muito distante do sonho sionista e não sionista. Os judeus vitoriosos na chamada “Guerra de Independência” passaram a ser obrigados a viver cercados por uma população árabe hostil dentro de fronteiras constantemente ameaçadas. E os judeus e israelense passaram a viver em um Estado completamente “absorvidos pela autodefesa física em um nível que afogaria todos os outros interesses e atividades” (2016, p. 664).

Toda violência e sofrimentos gerados poderiam, em muitas esferas, ser poupados caso fosse considerado o estabelecimento de comitês judaico-árabes sob a supervisão de uma autoridade internacional. Nesse sentido, muito provavelmente o território compreendido por Israel e Palestina não seria tão violento e, sobretudo, tão sectário.

O projeto de um Estado federado propunha estabelecer um governo para dois povos, de modo a evitar a supremacia da maioria sob as minorias. O plano seria baseado em conselhos comunitários judaico-árabes de proximidade entre vizinhanças. Haveria, assim, a instalação de unidades locais compostas por judeus e árabes, sob o comando oficial de alguns membros das Nações Unidas. Toda essa estrutura daria ensejo a um promissor autogoverno cooperativo.

Em oposição à certas fileiras sionistas, Hannah Arendt se recusava a equiparar os árabes aos alemães, como inimigos do povo judeu. Por isso, considerava fundamental viver em paz com os vizinhos árabes. Contudo, a paz só poderia ser alcançada por intermédio de uma sólida base de cooperação judaico-árabe e, por outra parte, através da eliminação radical da presença de grupos terroristas, como Irgun e Stern, e não realizando acordo com eles.

Por fim, um autogoverno local, concretizado pela instalação de conselhos municipais e rurais mistos, compostos por representantes judeus e árabes, para Arendt, seriam as únicas medidas realistas capazes de conduzir a autodeterminação de Israel e da Palestina e à paz entre os dois povos.

Infelizmente já é tarde demais …

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REFERÊNCIA

ARENDT, Hannah. Escritos Judaicos. Tradução: Laura Degaspare Monte Mascaro, Luciana Garcia de Oliveira e Thiago Dias da Silva. São Paulo: Amarilys, 2016.

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