Um breve réquiem para bell hooks

Por Jessica Santos | Ponte Jornalismo

Alguns chegam à pensadora negra pelo feminismo, ou por seus aportes à educação. Mas também pelo seu olhar singular sobre o amor: um ato de mudança para alcançar um lugar comum. Em seu trajeto, um trabalho de cura em tempos bélicos. O DV reproduz o artigo de Jessica Santos sobre bell hooks para o Ponte:

Surgiu em um grupo de WhatsApp a notícia: morre bell hooks. Ainda estou um tanto catártica enquanto escrevo esta homenagem. Não sou uma velha conhecida da obra de hooks, confesso. Para ser sincera, a encontrei mais a sério neste ano, falando sobre um tema que deixa toda uma geração cética ou mesmo arredia: o amor. Há alguns que a encontram no feminismo, outros que encontram seu olhar sobre a educação. Todas estradas levavam a Roma e múltiplos caminhos levavam a bell.

Em algum lugar da internet, cheguei a “Vivendo o amor” e o que ela falou sobre a vivência amorosa das mulheres negras ecoou na minha vivência pessoal de uma forma que ainda me deixa atônita pela precisão. Pronto, nos tornamos boas amigas. E reforçamos a amizade durante a leitura de Tudo sobre o amor, o primeiro livro da Trilogia do Amor, lançado no Brasil pela editora Elefante.

Nascida Gloria Jean Watkins, bell adotou o nome da bisavó Bell Blair Hooks para homenagear a mulher que era uma espécie de lenda familiar por sua coragem. Era autora de mais de 30 livros, professora universitária e ativista feminista e antirracista. Seu primeiro trabalho, “E eu não sou uma mulher”, nasce quando tinha 19 anos e desde então, sua obra conversa sobre racismo, sexismo, interseccionalidade e as implicações do capitalismo nessas vivências.

A escrita de bell hooks é reflexiva, sem afastar com academicismos rebuscados. Seu falar narrativo é como um lugar acolhedor em meio aos ruídos da existência. Mas não se engane: o que ela escreve pode abrir velhas feridas, deixar desconfortável, fazer chorar. Antes de nos deixar, ela deixou seu objetivo claro: “Eu quero que meu trabalho seja sobre a cura”. Convenhamos, leitor, cura não é algo que costuma estar na pauta dos ativismos múltiplos e amor não chega nem perto de qualquer forma de pensamento dito lógico, que dirá de uma atuação política. Exigimos, debatemos, protestamos, mas curar… não, não tem estado em nossa pauta. Para haver cura é preciso que admitamos que não estamos bem e isto não está no hype do momento (basta abrir as redes sociais para confirmar o que digo).

Ao falar de amor, a pensadora apontava esta “vontade de se empenhar ao máximo para promover o próprio crescimento espiritual ou o de outra pessoa” (definição de amor que utiliza no livro) como fonte para a cura das relações familiares, interpessoais, sociais e políticas. O amor que sua obra propõe é um ato da vontade, está ligado a preceitos que são muito ditos e pouco praticados como honestidade, justiça e verdade e pode ser o laço comum a uma comunidade.

A doçura de seu narrar desarma o ímpeto raivoso que nos permeia nestes tempos. Ao abrir um pouco de si em todas as imperfeições, bell hooks se afastava do pedestal que costumamos colocar nossas heroínas sem defeitos e que nunca podem errar. Tanto é assim que fazia questão que seu nome fosse grafado em letras minúsculas, deixando claro que o que ela dizia estava acima de seu ego.

Em tempos tão perigosos para ser uma mulher negra que ergue sua voz, bell se tornou um símbolo de esperança em meio a fúria de viver em um Brasil belicoso. Sua obra não nega a luta para que cheguemos aos lugares que nos são de direito, mas mostra um caminho de cura, de amor, de debate e de lógica.

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