1. Ǫuais trabalhos marcaram sua trajetória e por quê?
Olhando pela minha subjetividade, meu ponto de partida também é a dúvida que tenho às vezes se não é nossa trajetória que marca os trabalhos, nosso repertório é imenso de recursos naturais e outros naturalizados pelas particularidades de nossas circunstâncias, e não tenho dúvidas que o mercado não espera tamanha resiliência.
Todos os trabalhos são importantes, para qualquer um de nós que vem de um lugar de exclusão e vulnerabilidade social. Valorizei, valorizo e continuarei valorizando cada minuto de set de filmagem. A linguagem audiovisual não é diversa academicamente falando, a presença do cinema em universidades é recente e não para todos.
Compreender a linguagem de comunicação em set de filmagem, só mesmo em set de filmagem. Ninguém da minha geração ou a que antecedeu a minha teve o privilégio da orientação e o aprendizado prévio, só descobri o que era uma traquitana quando precisei de uma, sem contar os termos inglês - estes são para matar a tua esperança inicial de pertencer.
Em 2012 fui contratado como atendimento da TGD Filmes - a produtora mais antiga aqui depois da Casa de Cinema - por Roberto Turquenich, após ele assistir um curta-metragem que eu tinha dirigido através de uma oficina nacional de audiovisual, e assim segundo o próprio fundador eu seria o primeiro atendimento negro à frente de uma produtora vendendo nas agências de publicidade o olhar dos diretores de cena da casa, para a possibilidade de orçar, e quem sabe rodar.
Um dia tive minha primeira reunião em uma agência muito grande por aqui, uma reunião de alinhamento onde haviam duas pessoas negras numa sala com mais ou menos dez pessoas: eu e o homem que servia o café.
Ao voltar da reunião, o telefone toca e a rtvc me pede o "briefing" da reunião. Não entendi nada e desci até o andar onde ficava a ilha de edição e, na frente de todos que estavam lá, ingenuamente perguntei o que era briefing. Para minha sorte, todos ali sabiam das minhas condições e gentilmente um dos diretores me explicou e logo após, fiz o que pude.
Essa foi minha primeira “publi” que não só me ensinou o que era briefing, como também veio me mostrar o cruel potencial do mercado audiovisual direcionado a corpos como o meu. Antes disso, veio o curta O Rosto que Sorri que eu acabei compondo um som pro filme na época junto a Marjorie Jonsson da banda Garota Verde. Mas antes de tudo isso, o curta Os Amigos Bizarros do Ricardinho do meu super amigo e conterrâneo viamonense, Ricardo Lilja, que me trouxe até aqui.
Por isso a leitura que tenho referente a minha singularidade é que todo trabalho tem sua importância e também é um caminho não-linear, que a cada passo insiste em negar minha existência. Ainda respirar fazendo parte de um projeto de asfixia é praticamente um milagre e isso vem de todos os lados, eu disse todos os lados.
2. Em que momento você percebeu que estava abrindo caminhos como o primeiro diretor de produção negro do Sul do Brasil?
Eu não tinha consciência do ineditismo, eu fui fazendo, e na medida que tudo ia acontecendo eu ia escutando dos mais velhos isso, escutava isso nas prés, as vezes no set e fui entendendo, e o
mercado também: ele não me percebeu, se não teria tentado me dissuadir, mas como ele não tinha protocolo para minha presença vibrando fora da zona de subalternidade colonial audiovisual nessa frequência, ele não percebeu, e numa bela manhã eu entrei pelo rádio e dei bom dia a equipe.
Com a consciência, veio o entendimento da importância da função dentro e fora do set. O mercado não te chama para ser diretor de produção, olhando pra mim ele me chama para produzir, e quando subtrai-se a direção da frente, não se reconhece o status, a existência, saca? E assim o apagamento do que ainda nem existe começa a tomar forma, e foi aí que encontrei um mercado que exige tanto, não preparado pra mim.
No que diz respeito ao que tocamos fora do set, vou usar uma situação real para elucidar a importância de estarmos ocupando estes espaços: fui convidado para dirigir a produção de uma série e pude levar algumas cenas para a comunidade onde cresci. Enquanto montamos nosso primeiro set em uma das ruas, os moradores foram se aproximando, com toda a curiosidade que um set trás. Foi quando um menino de uns 10/12 anos de idade me perguntou se eu era o Vandré que morava naquela casa ali e se as pessoas que ele me disse o nome eram meus irmãos. Eu disse que sim e ele me respondeu: “Então eu tenho esperanças”. Uma resposta dessas de um corpo tão jovem diz muito sobre a importância deste trabalho, a vida daquela pessoa pode ter mudado naquele dia, veja a importância desse trampo pra mim também, por isso eu coloco tudo no meu repertório.
3. Como é, para você, ocupar esse lugar histórico no audiovisual?
É um processo de constante manutenção psicológica. Como sobreviver em um lugar onde nada é pra você? Estar neste lugar é desafiar não só as leis da exclusão e do racismo estrutural social mas também do próprio nicho audiovisual, que nos vê como corpos “desautorizáveis” e até não merecedores. Outro dia eu recebi uma proposta com todas as vírgulas e muito bem redigida mas com um salário de produção de set, que é uma função indispensável para que tudo funcione, mas não é o de um diretor de produção, e isso é muito recorrente e desgastante nos fazendo sentar e redigir uma resposta escolhendo muito bem as palavras, e ainda sim as chances de você ser colocado em lugar de ingratidão e ganância são bem maiores.
Com certeza estarmos em um lugar de poder em um universo tão elitizado, tem um sabor exótico que não é nem doce e nem salgado, porque esses nós conhecemos.
Falando do mercado gaúcho, ele é mentiroso, e com a nossa chegada ele aprimora suas técnicas, de forma velada e muito silenciosa, não para nos expulsar, porque isso falaria mais sobre ele, mas para que desistamos e com isso a responsabilidade de não estar caia em nossos ombros.
Ele faz o universo local audiovisual acreditar que com a minha chegada, eu tenho a mesma liberdade de escolher materiais e mão de obra a partir da soberania que a rubrica me traz, assim como sempre foi com os diretores de produção "das antiga”, só que não, muito pelo contrário, a grande maioria das produtoras, tem seus prestadores de serviço e na maioria das vezes hoje em dia, nós vamos dirigir uma produção com uma equipe quase fechada, e trabalhar com a equipe já nessa fase é para produtora uma garantia de entrega, é assim que ela vê, e se for assim ela me dá uma “goela”, e eu tenho uma chance.
O problema disso é que o mercado faz principalmente as pessoas negras e outros marginais a acreditar que a sua oportunidade e ausência, parte exclusivamente de uma escolha minha como diretor de produção quando estou presente, só que não. E quando isso acontece o mercado consegue que a revolta venha na minha direção e nem o cogite. Alguém disse Lynch?
4. Em algum momento você sentiu que sua presença incomodava ou desafiava padrões na área?
Eu acho que na medida que tudo ia avançando, a consciência vem evoluindo junto aos atravessamentos, e isso é um processo. A arte é um ofício que te cobra consciência, e mais cedo ou mais tarde ela chega.
Na verdade, estar já desafia e incomoda e se você ainda vem com o mínimo de autoestima e amor próprio, aí a tendência é as coisas pesarem um pouco mais sobre você, por isso buscar o autoconhecimento é importante, nos dá uma base cada vez mais sólida.
Para termos uma ideia de quanto incomodamos, teve um trabalho em que um dos meus empregadores em uma janta na pré com equipe reduzida se sentiu à vontade para começar a precificar a roupa que eu usava, ele comparava a dele dizendo o valor que pagou naquela peça , aí ele olhava pra minha e de forma intrigante sugeria um valor cinco vezes maior. Me perguntaram na frente dos demais o seguinte: ”onde tu gasta teu dinheiro”?
Para muitos pode parecer inocente, para mim, eu vejo isso como uma avaliação da parte dele de que forma o dinheiro que “seria dele” está sendo empregado, e assim ele começa a avaliar o que ele irá fragilizar com seu juízo de valor, que tipo de ameaça posso ser e quais são meus acessos através do dinheiro que “ele” viabiliza. E assim foi até eu sair pela primeira vez de um projeto, minha calma incomodava, meu autocuidado incomodava, meu perfume incomodava, estar com meus calçados limpos e poder trocá-los diariamente incomodava, trocar de roupa foi motivo de piada resmungada que estávamos em um fashion film.
Por ignorância, mal sabem o que significa estar calçado e poder trocá-los quando quer, principalmente nessa funçao, mal sabem o que é um corpo como o meu ter que abrir uma locação em uma região com uma pontiaguda estrutura racista, é muito importante não só para gente estar cheiroso, estar bem arrumado, mas para o projeto que eu represento. A produção às vezes é o primeiro contato e a falta desses cuidados podem derrubar uma locação antes mesmo de abri-la.
5. O que mudou — ou ainda precisa mudar — para que mais pessoas negras ocupem espaços de liderança no audiovisual?
Começar tudo de novo.
6. O que define um bom diretor de produção?
Nada, existem muitas formas de se dirigir uma produção, é muito subjetivo, cada projeto é um universo que tem necessidades específicas pra que funcione. Se você entregou todas as demandas de um filme da forma que uma planilha espera, considerou as possíveis intercorrências e respeitou a equipe. É um corpo padrão? Bem provável que o mercado lhe acolha. Não é o caso comigo e outros periféricos, assim como também não o vejo da mesma forma como quem sempre esteve. Vou trazer aqui alguns fatos reais pra elucidar um outro ponto de vista, ele não é melhor e nem pior, ele só vem de um outro lugar.
Fui fazer um projeto de longa metragem que se sustentava em uma história preta, então eu não pude deixar de pensar em algumas coisas bem pontuais que poderiam atenuar as dificuldades dessas pessoas. Então eu pensei em algumas ações na direção dessa gente, e tomei a liberdade de chamá-las de “Ações Afirmativas”. Talvez não seja o nome mais adequado, mas foi o que me ocorreu e até o final do processo jamais chegou outra sugestão.
Uma vez em um set, eu ouvi uma pessoa humilhando outras porque o nome delas não estavam na claquete do filme e que a posição do nome que ela estava no hotline de equipe estava bem no início - ao seu ver, estas situações faziam dela uma pessoa mais importante que os demais. Eu nunca esqueci disso e pensei que se é só isso para que aquele produtor de set exista, então eu vou colocar o nome dele lá um dia, e assim nasceu a primeira ação, O Nome das Pessoas Negras do Set na Claquete. E todo dia tinha um nome novo que nunca está até o fim do projeto, e nada pode motivar mais um coração do que o reconhecimento da sua existência, e isso em equipe, é muito importante.
A segunda proposta era o Auxílio Creche para crianças de até 5 anos, a sugestão foi de R$ 300,00. A intenção não era resolver, mas fomentar o pensamento nesse sentido, pessoas pretas periféricas sobretudo as mulheres são bem atingidas também nessa questão. Para que eu tenha a tranquilidade
e a segurança emocional que uma direção de produção precisa ter em set, a minha assistente de câmera que é mãe solo também precisa quando sai de casa. E todos ganham com isso.
A terceira proposta apresentada foi a Distribuição da Verba de Produção, essa proposta delicada era o seguinte, caso eu conseguisse através das negociações boas economias da verba que me foi passada para produzir o set, eu sugeri que a importância fosse partilhada entre as pessoas negras da equipe.
Ǫuarta proposta, foi que nossa primeira diária fosse ungida através da Religiosidade Africana antes mesmo do nosso café da manhã.
Ǫuinta, sobre termos um Suporte Psicológico dentro do projeto, não precisaria ser uma pessoa só, poderia ser uma plataforma popular onde paciente poderia escolher livremente com que falar, a produção nem teria acesso com quem foi a consulta, só pagaríamos.
Sexta proposta, levarmos a Culinária Africana para alguns momentos do set.
Sétima proposta, como forma de Homenagem e Reconhecimento, recebermos o primeiro diretor de fotografia negro do sul do Brasil e convidá-lo a dirigir uma única cena.
A oitava proposta, Reconhecimento da Existência.
Tem também um tom de pedido, e ela dizia: “Eu quero existir através do relato de vocês, porque mesmo sendo eu um diretor de produção há bastante tempo, o mercado só reconhece minhas potências, através da fala de pessoas não negras, então se estarei envolvido nesse letramento durante o projeto, seria importante que o projeto me reconhecesse através de vocês nesse sentido também”.
A produção é um trabalho tão técnico quanto a fotografia, a arte, a direção, ao som e assim por diante,
e não é reconhecida, porque é colocada sempre no lugar de “passar café”, acredito que isso vai mudar um pouco quando os festivais passarem a reconhecer a direção de produção nas suas premiações.
Em outro projeto com o mesmo viés temático, que chamarei aqui para me fazer entender de "filme de quilombo".
Geralmente quando uma produtora faz isso, a ideia que ela tem é trazer pessoas negras para o trabalho para evitar ou minimizar as possibilidades de um diligência em direção do projeto e dessa forma ela sinaliza para o edital que é antirracista, mas na prática funciona de outra forma. Neste, desta vez, vou destacar apenas duas das múltiplas problemáticas deste projeto.
A primeira, foi após contratar pessoas negras e periféricas para o trabalho, firmaram base em um dos lugares mais elitizados da cidade, e se você não sabe o tipo de vulnerabilidade e violências que isso pode trazer na direção dessas pessoas, isso prova que você não tem que fazer trabalhos como esse.
No meu primeiro dia após realizar toda a identificação exigida ao tentar entrar no elevador, uma estranha, uma mulher se sentiu a vontade de pôr a mão no meu peito e me impedir de entrar indagando onde eu ia.
O segundo momento foi quando soube que o transporte da equipe, composta em sua maioria por pessoas negras e periféricas, seria pago apenas ou a ida, ou a volta, veja que para mim aqui nós temos um problema enorme na minha visão como diretor de produção. Se como proponente você não entende a importância deste direito a essa população, isso também prova que você não deve contar essas histórias. Talvez fosse um caminho, estes projetos serem fiscalizados na pré e durante os sets no mínimo. Veja que eu trago à superfície estes exemplos para vermos como pode ser cirúrgica a visão de uma direção de produção.
Nosso olhar não é fixado no racional, existe uma serena reflexão a partir do nosso próprio senso vital que não é galgada na racionalidade mas no pulsar da consciência que incide pelo coração que é sua morada.
7. Como você enxerga o mercado de produção audiovisual hoje no Brasil?
Parece estranho enxergar algo que não me enxerga, acho que pra responder essa pergunta eu precisaria estar, me sentir parte, e contenção não é fazer parte, é resistir. Mas acredito que aos poucos estamos melhorando, também se percebe essa fração de melhora, através de incentivos como a LPG, Lei Aldir Blanc e também nos streams que buscam originalidade. Mas dito isso, dá pra ver que o mercado abraça e busca a originalidade, ainda é indigesto nosso protagonismo, mas nosso avanço é inevitável, só queremos contar nossas histórias.
8. Ǫuais mudanças técnicas e criativas você acompanhou ao longo da carreira?
Realmente é difícil acompanhar mudanças técnicas quando não se está inserido nesse universo, essas coisas não chegavam na periferia, nunca conheci alguém com uma câmera perto de mim, e ainda hoje chega muita “velha coisa nova”. Pensar cinema sempre foi algo muito elitizado. Ǫuem poderia ter ou acessar o mínimo para produzir um curta? Acho que o primeiro curso de cinema em uma faculdade no sul não tem vinte anos. Ǫuem poderia fazer?
Eu acredito que para o povo periférico nesse sentido, o que mudou bastante foi a chegada do celular, isso trouxe o cinema para as mãos da gente, não só nos possibilitando e nos aproximando da criatividade audiovisual, mas também como uma ferramenta de denúncia e proteção.
Com a retomada de 2023, também veio a primeira vez de muitos cineastas periféricos, inclusive como proponentes, então tecnicamente falando eu quero acompanhar a evolução das políticas públicas de inserção, a criatividade para as políticas públicas de inserção, acredito que dessa forma pouco a pouco teremos um dia a chance de acompanhar e entender a evolução deste mercado.
9. Como você gostaria de ser lembrado profissionalmente?
Antes disso, precisamos existir, é importante frisarmos isso, a luta contra o apagamento é real e ele vem de todos os lados, eu disse todos os lados . Mas acima de tudo, sou um artista.
10. Ǫue conselho você daria a jovens negros que desejam atuar na produção audiovisual?
Respeitem os que vieram antes de vocês, não consigo traduzir respeito, respeito é só respeito mesmo. Talvez tua ancestralidade coma, durma e tenha pavimentado muito do caminho hoje debaixo dos teus pés, respeite.
11. Como foi para você ver a Savana Filmes ser contemplada na LPG com o desenvolvimento do seu primeiro longa-metragem como diretor, roteirista e também proponente?
Tá aí uma sensação de pertencimento, é um sentimento inexplicável perceber seu pensamento reconhecido, e não só financeiramente, mas reconhecido de forma intelectual. Não basta você ter um bom projeto, precisamos compreender as regras do jogo para poder dialogar e vibrar nessa frequência, tarefa nada fácil para consciências periféricas fragilizadas, mas a necessidade e a fé no amanhã nos mantém de pé, e assim pude pensar Savana, que teve uma ótima colocação no edital de desenvolvimento de longa- metragem na LPG.
12. Ǫuais os impactos econômicos que a contemplação na LPG traz não só para a Savana Filmes mas também pra você?
Bem, no que diz respeito a Savana, ela passa a existir oficialmente na sala do cinema no audiovisual, ela recebe a confiança de administrar de forma responsável a contemplação fazendo as melhores escolhas possíveis, para que sua entrega seja honesta e assim pouco a pouco se torne uma periférica empresa sólida comprometida com a arte e o cinema brasileiro.
Para mim e acredito que também que para qualquer um que nunca ganhou nada e sabe que essa era uma coisa muito distante há pouco tempo, ver seu cnpj que você deu nome, ser contemplado com uma boa pontuação carregando tua ideia e sua história, sim eu me senti o CEO de uma empresa, um roteirista, um produtor, um diretor e acima de tudo um artista reconhecido que merece ser ouvido, e isso faz bem a qualquer um de nós.
No universo financeiro, trouxe e traz sim um breve sabor de reparação e dignidade. Ǫuando eu paguei a primeira coisa qualquer com meu cachê de produtor, diretor e roteirista, eu me senti indenizando alguma das muitas violências sofridas. Nossa história não é entretenimento.
Com isso não foi só a Savana a contemplada e eu, mas todo um círculo familiar, além de nos trazer para este lugar de intelectualidade que merece ser remunerada para que o mínimo não lhe falte e assim com dignidade possa sentar e pensar seu projeto, e isso tocou toda família.
13.Você aprovou o mesmo projeto com ótimas pontuações em duas linhas,na municipal e na estadual.Como foi isso?A Savana poderia lidar com os dois recursos?
Não, sabíamos desde o início que se isso acontecesse tínhamos que optar pelo caminho mais conveniente para o projeto, fizemos a leitura e decupamos o edital. É gostoso para quem nunca pode, agora escolher, se sentir inteligente e capaz, até achei que isso pudesse render alguma conversa produtiva, afinal de contas tínhamos ótimas pontuações e um projeto bem estruturado, mas tudo que consegui foi uma denúncia, e quando a gente sabe de onde vem, é um desses momentos que dá pra ver que nós temos muitos problemas pra resolver.
14. Você tem direções de cena não só na parte do cinema como também na área publicitária, como é estar nesses dois mundos tão distintos e tão próximos ?
Foi acontecendo naturalmente na medida que as escolhas eram feitas, particularmente eu acho interessantíssima essa possibilidade, poder estar nessas salas tão distintas e tão parecidas também, isso traz fluidez para pensar produção e também, diferentes lugares de criação, isso me ajudou muito a observar o audiovisual de lugares diferentes e também a dirigir comercial para tv aberta e internet assim como o documentário do primeiro ano da delegacia de intolerância de Porto Alegre.
15. Falando ainda sobre a direção de cena, você andou rompendo uns padrões na área publicitária, gostaria de destacar aqui os dois filmes do Grêmio, poderia comentar como foi esse processo nos dois filmes ?
Foi muito legal atender este chamado da Grêmio TV e a equipe de marketing, participar dos dois processos de algo tão importante para um clube deu muito orgulho pra gente, a missão de filmar a joia tricolor.
No primeiro filme nós tínhamos a ideia de trazermos uma canção conhecida cantada nos jogos pela torcida agora para ser cantada pelos jogadores. A campanha se chamava Grêmio Pelo Mundo, e para ilustrar melhor isso, essa canção seria cantada um pedacinho dela por alguns jogadores, cada um no seu idioma, já que no elenco do clube tinha essa diversidade. Mas ainda tinha mais uma dificuldade, por conta do vocabulário, algumas partes da música não poderiam entrar, então nós trouxemos uma outra ideia sem perder a essência da premissa do projeto.
Propomos os portrait em slow dos atletas e a música ao invés de ser cantada, trouxemos a ideia dela vir em forma de legenda em português mas no idioma nativo de cada jogador. Tudo isso com uma fotografia e uma proposta estética que nos levasse para a sensação de estar vendo um filme, principalmente nos momentos em que as falas entram.
Abordamos a coisa da herança através do ouro nas luzes, nas legendas, no cenário e até no manequim que veste a camisa, ainda não tínhamos visto um modelo manequim dourado. E assim foi.
Já no segundo filme, Ǫuem Veste Veste História, o clube já veio com a ideia de flertarmos com o mundo da moda, e aí fomos para a linha block core, e eu simplesmente amei dirigir este projeto já que amo moda. Nesse processo me envolvi um pouco mais além do roteiro e da direção, acabei montando, compondo o off, gravando a voz e as vozes experimentais também. Tudo de forma muito orgânica pelo nível de comprometimento mesmo.
Eu acho que trouxemos alguns ineditismos com os dois projetos quebrando alguns paradigmas bem importantes de mãos dadas com o clube. No primeiro filme, além dos aspectos estéticos trazidos, nós podemos trabalhar com o protagonismo preto no início com uma atriz e no final com um homem preto retinto senegalês, além de uma equipe majoritariamente preta, dirigida por um homem preto.
No segundo filme nós abrimos com um homem negro que é fio condutor para o protagonismo de uma mulher preta retinta, com seu cabelo solto, seu vestido de rede e um buquê de gypsophila nas mãos, tem muita coisa aqui.
Também dirigido e roteirizado por um homem negro, debaixo de um cnpj negro, com uma equipe majoritariamente negra, e em ambos os sets, tinhamos aproximadamente quarenta pessoas na equipe, se contextualizarmos, veremos que isso nao é uma coisa simples.
Ainda sim, ninguém fala disso, falar disso é reconhecer minha existência, se fosse qualquer outra pessoa talvez teriam organizados aquela live no mínimo, para falar dos processos e as inspirações que trouxeram tudo isso.
Se tu leu tudo até aqui, viu que esse é um mercado que é mais sobre o quanto tu aguenta apanhar e não sobre bater, com tudo isso chegamos até aqui. E você que bate, poderia também?
Este vai ser um ano de muita atividade para Savana Filmes, vamos seguir nosso trabalho com amor, com afinco, dedicação e honestidade com a arte, para que possamos ser um floco de representatividade periférica dentro do audiovisual.
16. Como é a relação cultural com a sua cidade de origem, que é Viamão?
Viamão é também minha casa, uma cidade iniciática pra mim em muitos lugares. Aqui eu tive muitas primeiras e últimas vezes, foi aqui que despertei para arte. Foi olhando pra esse chão e esse céu que fiz grande parte dos meus poemas e minhas músicas. Foi aqui que meus pais puderam dar uma casa pra mim e meus irmãos, e grande parte das pessoas que amo está, por isso sempre volto ou ainda estou. Meus últimos filmes publicitários tiveram dois protagonistas viamonenses que fui buscar na Estalagem, bairro onde cresci. Pra lá já levei algumas diárias de uma série que fiz, e em 2025 retornei à cidade com duas diárias de um longa-metragem. Hoje estamos gravando na Estalagem um trailer para divulgar o desenvolvimento do longa-metragem A Princesa Lavínia, que deve ser rodado integralmente na cidade de Viamão e é meu primeiro longa metragem como diretor e roteirista.





