A praia e o velho

Na década de 60 Hemingway escreveu um livro contando a saga de um velho. O tema foi a experiência do personagem com o mar e a pescaria. Escrevo agora e, quase parafraseando, com todo respeito e pretensão Ernest Hemingway, sobre um outro velho, cidadão dos pampas gaúchos, destemido, aventureiro, realista e, que resolveu viver próximo ao mar depois dos 80 anos de idade. Todos nós envelhecemos. É inevitável. Alguns tem o privilégio de escolher o lugar mais adequado para viver estas transformações. O tempo passa rápido. Seu Mário, personagem desta crônica, escolheu o mar para viver e envelhecer. Livre dos aparentes problemas da cidade grande. Com mala e cuia deixou Porto Alegre. Transferindo-se definitivamente, para um lugar bem pequeno na orla do Rio Grande do Sul. Dentro do âmago de seu Mário, vivia um outrora cidadão ateu. Mas agora, junto às marés azuis e as estrelas, entendeu finalmente Deus. Sentia a profundidade da vida na imensa solidão da areia e do nascer do sol. Já não era mais o mesmo, desde que se mudou para o mar. O vilarejo era pequeno. Imediatamente dispensou seu automóvel, preferindo longas caminhadas de reflexões à cheiro de gasolina. Conversar com pescadores e gente humilde, do que com catedráticos mestres de Universidades. Optou pelo simples e pelo natural. Não estava arrependido de ter trocado o barulho pelo silêncio. Nem as altas conjecturas intelectuais por uma vara de pescaria. Seu Mário abandonara também o hábito de comer carne e enlatados. Preferia legumes, frutas e fibras. Sua pele estava se adaptando à nova alimentação. A cada dia se sentia revigorado. Os cabelos brancos, agora brilhavam com o sal e o sol marítimo. A pele já bem bronzeada, fazia dele uma figura exótica. Na verdade, ele era. Depois de compreender o mistério da criação. De sentir a criação de Deus lhe veio a mente, pintar. Foi ao município mais próximo e comprou telas, tintas e pincéis.Voltou para casa com muitas ideias na cabeca. A principal delas era pintar “marinas”. Uma experiência que enchia seus dias de prazer. Eram telas bem coloridas com a temática do mar. Peixes, ondas, sóis, luas, estrelas e nenhuma pessoa. Averso a multidões, transferia também para suas telas esta negação. ”As pessoas desta humanidade, não me interessam”, frisava ele. E pela praia foi ficando: pintando e vivendo, o que a vida ainda reservava para ele. Uma velhice tranquila. Livre de cárceres de relacionamentos. E livre principalmente das amarras, que enlaçam as mentes criativas.

 

Participe de nossos canais e assine nossa NewsLetter

Compartilhe esta notícia:

Facebook
WhatsApp
Twitter
LinkedIn
Pinterest

Conteúdo relacionado

Comunicação moderna

Para aqueles que tem mais de 70 anos como eu, causa estranheza esta linguagem moderna de tudo. Principalmente nos computadores. Alguém já recebeu em sua telinha, frases curiosas tipo: “Prove

Leia mais »

Receba nossa News

Publicidade

Facebook