A vizinha Ernestina

Chegada à Porto Alegre vinda do nordeste brasileiro fugia de suas lembranças. Cruéis e sinistras lembranças. De fome, de desarmonia e intranquilidade. Seus pais eram analfabetos. Se vestia de trapos e jamais soube o que era realmente uma mesa farta. No lugarejo onde nasceu não havia água nem comida. A não ser naqueles barrentos baldes coletados na sanga poluída. E que foi, com o tempo, enrugando sua pele e enchendo sua barriga de parasitas.

Aos 17 anos enamorou-se de um gaúcho que fazia parte do regimento militar que peleava por lá na Revolução de 1924. A paixão foi fulminante. Não demorou muito para casar com ele e mudar-se para Santo Ângelo no Rio Grande do Sul. Maravilhada com a recepção dos gaúchos chegou mais tarde até fixar residência em Porto Alegre. Desta união, nasceu três filhas. Lindas. Com sangue nordestino e alimentação forte e consistente aos moldes gaúchos.

O marido, era bonachão e gostava de um trago bem forte. Nas tardes frias do inverno atravessava a rua. E dirigia-se a um bar chamado “Candinho”. Ali bebia. Ali silenciava. Ernestina e o marido   residiam na zona norte de Porto Alegre no bairro do IAPI. A filha mais velha tinha um namorado. Que em noites acaloradas pulava a janela do quarto da moça para algumas horas de amor. Ela casou com este noivo aventureiro. Com vestido branco e fingindo uma certa inocência. Em seu ventre, trazia um bebê à caminho.

Ernestina estava envelhecendo. Com forte sotaque pernambucano ia contando para as vizinhas sua sofrida infância no agreste brasileiro. Agora se considerava uma cidadã de verdade. Morava num estado rico, onde havia comida em abundância. Se alimentava direitinho. Tinha uma família e três filhas bonitas e adoráveis. O marido falava pouco. Ele conheceu pessoalmente o legendário Virgulino Ferreira da Silva, o “Lampião, o Rei do Cangaço”. E as escaramuças daquele período político no nordeste do Brasil.

O que Ermestina sempre enfatizava  era sobre a Coluna Prestes. Movimento político, liderado por militares, contrário ao governo da República Velha e às elites agrárias. Este movimento ocorreu entre os anos de 1925 e 1927. Teve este nome, pois um dos líderes do movimento foi o capitão Luís Carlos Prestes. A principal causa foi a insatisfação de parte dos militares (tenentismo) com a forma que o Brasil era governado na década de 1920.

Havia falta de democracia, fraudes eleitorais, concentração de poder político nas mãos da elite agrária e exploração das camadas mais pobres pelos coronéis. Geralmente os líderes políticos locais. Aos seus olhos não tão instruídos Ernestina via em tudo uma insatisfação. Sabia a origem do sofrimento dos brasileiros e procurava entender. Na década de 50, quando fixou residência em terras gaúchas sentiu um grande alento. De divulgar sua estória e viver uma vida com mais qualidade. Agora já sabia ler e estudava nossa história. Participava do MOBRAL, um movimento brasileiro, cujo objetivo era alfabetizar adultos.

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