Volta e meia eu ficava imaginando como deve ser a vida das aves, ficar pairando sob os mares, montanhas, desertos áridos. Também existem as espécies que viajam quilômetros apenas para copular e reproduzir, ou para buscar alimentos para os seus filhotes. É tão humilde a existência dos bichinhos, eles não tem um deus que os puna, ou agracie. O deus deles somos nós, e nós buscamos os nossos próprios deuses.
Temos desejos que não cessam, crescem à medida que nós crescemos. E nos frustramos com o desenrolar da vida, que empurra, esmaga e molda todos os dias. Em contrapartida, há uma alegria singular de ser – ser humano. E sentir tudo à flor da pele, da gota de chuva à lágrima salgada que escorre no rosto. Colecionamos arrependimentos, e muitos “e se?”. Nossa existência não é tão humilde quanto a das aves. A trilha da vida é exigente.
É longa, tem pedras pontudas e à medida que subimos, fica mais íngreme. Não existe corda para puxar, é uma caminhada, mas também pode ser uma corrida. Conforme o tempo vai passando, perguntamo-nos: “é por aqui, ou por lá?”. E se considerarmos que nessa trilha não existe mais ninguém além de nós mesmos, tudo o que recebemos como resposta é um profundo e aterrador silêncio.
Será que esse silêncio é o mesmo que as aves ouvem ao deslocarem-se por incríveis distâncias? Bom, elas sempre têm um objetivo ao realizar uma travessia. Talvez o que elas escutam e sentem, seja algo parecido com a urgência de chegar. Chegar lá. Do outro lado.
Para nós, de existência menos humilde, de caráter mais desejante, talvez não exista esse outro lado construído de forma tão concreta quanto gostaríamos. Por isso o silêncio na trilha pode incomodar, ou aliviar. Porque nele está inserido tudo aquilo que não sabemos explicar. O que ninguém pode saber senão nós mesmos. A trilha, a ave, o silêncio, e nós mesmos.





