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Alice Chala | Vírgula ordinária

O sol se punha devagar, e as pessoas buscavam os filhos na escola, provavelmente depois disso passariam na padaria, e iriam para suas casas, em família, andando até os seus bairros, de ônibus, ou dentro de um carro  qualquer, decorado com ursinhos e cobertinhas de tecido soft. Por um instante, pensei que um dia gostaria de viver uma vida ordinária assim, mas subitamente duvidei da minha capacidade de sustentar a coragem que ela exige. Viver essa vida ordinária, se contentar e sentir prazer no contentamento.

Porque sempre me vejo fazendo manobras para distorcer, e para exagerar a minha realidade. Às vezes encho minha cabeça de caraminholas, e em outros momentos, sinto que posso respirar e que existe sim um chão debaixo dos meus pés. Constantemente tenho arrepios atrás das coxas.

Estou pensando que amanhã de manhã será melhor, sempre penso assim, “amanhã de manhã será melhor”. Porque me apego naquele primeiro lastro de luz que chega ao clarear o dia, como se fosse a anunciação de qualquer possibilidade diferente do que foi o ontem. E quando a manhã acaba, acho que fico pensando na chegada do final da noite, para poder ter sossego do mundo, pensar nas coisas boas em paz. Na amizade leal, no amor que deu certo, na família. Conjecturando infinitos amanhãs.De qualquer forma, tenho dificuldade de não pensar no que será. 

É sempre uma previsão, e quase nunca um fato, tudo me foge, tudo ainda não aconteceu. Costumo ficar horas me perguntando se sou feliz, ao invés de simplesmente ser, e fico me questionando se o que sinto no meio da semana, às três da tarde, enquanto passo um café ou faço um chá, é tristeza, ou tédio, ou os dois. Sempre quero saber o porquê das coisas, e às vezes, quando nada louco me vem, sinto que invento qualquer coisa, só para poder justificar o martírio tramado. 

Para respaldar uma postura absoluta, rígida, impassível, abstrata, de caráter distante. Outra coisa que percebo é que o desejo de ser salva não é sincero, porque não me permito ser investigada. Daí surge uma dificuldade de dividir o silêncio, e me pego torcendo para que não falem comigo, para que eu possa seguir guardando todas as palavras que aprendi nesses anos, na intenção de não revelar nada novo a ninguém, nem uma vírgula sequer.

Ao final do dia, às seis da tarde, surge um desejo incessante daquela referida coragem para me enrolar no cobertor de soft, e me permitir formular muito menos do que formulo. Quem sabe para descansar um pouco, a fim de não precisar morar sob essa vírgula ordinária de conspirações, que me protege mas que também me ameaça, e afasta do real. 

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