Ana D´Avila | Cidade da sofrência

Na paisagem litorânea, mar e sol maravilhosos. Dentro do mar, magias. Na cidade uma sensação de progresso e felicidade. Era um oásis que encantava todo mundo. Ar puro, lojas e restaurantes de qualidade, pessoas alegres e um espaço  excelente à beira mar para caminhadas e exercícios físicos.

Era tudo que os cinquentões, sessentões e noventões   almejavam para o envelhecer. Entretanto, neste contexto, figuravam grandes infortúnios. Viúvos solitários, meninas procurando marido e uma fauna desesperada e preocupada com o vírus da Covid. Outras tantas, com o vil metal. A prostituição imperava e de certa forma, acalmava os tios solitários e depravados.

Todos indistintamente estavam ali para pagar seus pecados. E a felicidade, parecia mais efêmera do que realmente é. Existiam várias cafeterias pela cidade. A mais famosa delas e também a mais cara, tinha movimento concorrido. E os assuntos ouvidos no lugar eram bastante tristes.

Mulheres na meia idade narrando fatos de sua viuvez. Homens aposentados e irritados brigando na justiça com as ex-mulheres. E alguns, fugindo. De suas cidades, de suas situações financeiras e enfrentando novos hábitos. O mais comum entre todos, era o alcoolismo. Todos bebiam. Vinhos, cachaças, licores. E naquele ócio todo, dormiam muito. Pelas tardes e noites, encurtando o tempo da vida.

Passavam seus dias assim. Lutando com o desconhecido. Tentando consertar suas vidas. Já vividas e um tanto, perturbadas. Caminhando pelo calçadão, se tinha uma ideia que todos ali eram felizes. Esta felicidade até acontecia, mas durava muito pouco. Era um piscar de olhos.

Ferozmente e, quando tinha sol e condições, muitos guris buscavam o mar com suas pranchas coloridas. Praticavam o surf escancarados e alegres. Neste mesmo mar, entupido de entulhos e de sacos plásticos. Após, talvez, terem fumado um baseado ou tomado vinho com alguém. Ou mais honestamente, depois do alongamento. Feito ali mesmo, na areia da praia.

A cartomante do lugar atendia com hora marcada. Era o guru de todos. Logicamente, dos que acreditavam em sortilégios. Na porta do banco existia um grupo de ciganas descendentes de italianos. Viviam em Caxias do Sul, na Serra gaúcha e viajavam até o mar, tentando ler a sorte das pessoas que circulavam pelo centro da cidade.

Era muito interessante. A quiromancia, quase dava lugar ao dinheiro. Elas nem pegavam a mão de ninguém para decifrar as linhas. Iam direto cobrando o atendimento. Que diziam, não era barato não.

Os dias na cidade da sofrência  eram até esperançosos. Nas manhãs ensolaradas e noites de Lua Cheia dava uma gostosa sensação de prazer e fé. Mas tudo também se diluía. Como os olhares dos chegantes, como encontros em ruas desertas e aparentemente  cheias  de tranquilidade .

Num canto da cafeteria, sentada numa cadeira com pelegos, uma senhora chora. Acabou de perder seu marido para uma doença rara. Suas lágrimas eram salgadas. Seu café não tinha tanto gosto. Sofria. Como todo mundo naquela cidade. Não computados ainda, os doentes do atual vírus da Covid. Que sofridamente, perambulavam em busca de atendimento médico no Posto de Saúde do lugar. (Ana D´Avila)

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