Ana D´Avila | Sábado chuvoso

A pequena sacada dava para um hall cheio de estórias. Uma delas falava de uma deusa mística que teria vindo ao mundo na época de carnaval para fazer todos rirem e viverem em alegria constante. A outra falava de símbolos da medicina chinesa com sua acupuntura e suas agulhas mágicas.

A maga adentrou na sala com seus enormes cabelos castanhos.Seu olhar penetrante e suas habilidades para conduzir a consulta de tarô. Seus pais eram europeus. Veio para o Brasil depois da Segunda Guerra Mundial refugiada e transportada para um mundo tropical e insalubre.

A cliente chegou exatamente na hora marcada: nove horas da noite. Chovia um tanto garoa, lembrando São Paulo, a mega cidade da América do Sul cuja loucura estava nela e vivenciada por aqueles que a conheceram.Um cheiro forte de manjericão e alecrim faziam o ambiente quente se transformar num grande ritual.

A maga teria nascido na fronteira do Brasil com o Uruguai. Adquiriu um sotaque esquisito e aprendeu a decifrar o baralho chines com muita maestria. Estudou as lâminas cujo colorido era mais que símbolos. Eram desenhos cibernéticos. E com estas lâminas decifrava a vida das consulentes.

O sábado à noite transformava as ruas daquele local, em rios transparentes cuja imensidão de águas assustava.As águas corriam para o mar em grande disparada.Enquanto o sábado transcorria dentro da normalidade.Motoqueiros entregavam jantares.Rapazes alcoolizados estremeciam a rua com seus potentes automóveis e sons variados.

Na cobertura do edifício a mesinha chinesa escondia pedras,um crucifixo e o tal tarô. A maga foi decifrando o que via e o que correspondia com a necessidade da consulente. Tudo estava perfeito. As condições do atendimento, as reflexões e a adivinhação. Nada combinava, entretanto, com a sofreguidão da noite. Cheia de emaranhados, cheia de pressentimentos. E da chuva, que agora caía num ritmo alucinante.(Ana D´Avila)

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