A Bolívia entrou no nosso roteiro com um objetivo claro: conhecer o Salar de Uyuni. Para isso, cruzamos a fronteira vindo do Chile com destino à cidade de Uyuni. A travessia entre os dois países foi tranquila em termos de documentação, mas logo na sequência fomos surpreendidos por uma estrada de chão extremamente ruim. Foram horas de muita trepidação e atenção redobrada, até que paramos em um pequeno povoado para passar a noite. O frio era intenso, o vento cortava o rosto, e a sensação de isolamento fazia tudo parecer ainda mais extremo.
Chegamos a Uyuni com uma tensão no ar. Tínhamos recebido a informação de que poderia ser difícil abastecer o veículo, principalmente para estrangeiros. E era verdade. A Bolívia tem uma política de subsídio do combustível para os cidadãos locais. Isso significa que os estrangeiros pagam um valor mais alto, e muitas vezes enfrentam resistência para conseguir abastecer. No primeiro posto, enfrentamos dificuldade, nos disseram que não poderiam vender. Mas depois de procurar um pouco mais, encontramos outro local onde, mesmo com uma fila, conseguimos abastecer. Foi preciso paciência, mas no fim deu tudo certo.
Uyuni é uma cidade simples, humilde e extremamente acolhedora. Caminhando pelas ruas, vimos uma população que carrega consigo o peso da história, da resistência e do trabalho duro. As mulheres se destacam fortemente no comércio e nas tarefas do dia a dia. São elas que dominam os mercados, as lojas e as vendas nas ruas. Com suas saias rodadas, tranças longas e chapéus típicos, representam com força a alma boliviana. Essa presença marcante não é à toa. Na Bolívia, especialmente nas comunidades indígenas, as mulheres têm papel ativo na economia familiar e comunitária, e seu protagonismo é visível.
Dormimos uma noite no Cemitério de Trens, uma das atrações mais conhecidas da região. O lugar reúne vagões e locomotivas abandonadas no meio do deserto, formando um cenário ao mesmo tempo triste e poético. No silêncio da noite, com o vento soprando entre os trilhos enferrujados, parecia que cada peça contava uma história do passado industrial do País.
No dia seguinte, nos preparamos para o momento mais esperado: o Salar de Uyuni. Antes de entrar, foi preciso passar óleo por baixo do Wilson para proteger as peças contra o sal, que pode corroer componentes metálicos com facilidade. A experiência de rodar pelo maior deserto de sal do mundo é algo difícil de descrever. Uma imensidão branca que se estende até onde a vista alcança. O chão parece um espelho. O sol reflete com tanta intensidade que os olhos ardem. É frio e quente ao mesmo tempo. É surreal. Sentimos como se estivéssemos dentro de um sonho. Um daqueles momentos que a gente sabe que vai carregar para sempre.
De lá, pegamos estradas longas e seguimos rumo a La Paz. A chegada foi caótica. O trânsito da capital boliviana é um desafio por si só, ainda mais com um ônibus de quase 11 metros. Por isso, ficamos estacionados em El Alto, uma cidade vizinha que fica acima da capital. Ali existe um pátio que permite o pernoite de motorhomes, ao lado do aeroporto, o que nos deu segurança para explorar a cidade.
Visitamos La Paz de teleférico, o meio de transporte mais eficiente e com a vista mais bonita da cidade. Fizemos um tour guiado que nos ajudou a entender melhor a história boliviana. A mistura de culturas indígenas, a colonização espanhola, os movimentos de resistência e a força de um povo que preserva tradições e identidade. Caminhar pelas ruas de La Paz é ver mulheres vendendo folhas de coca, homens carregando sacos enormes nos ombros, vendedores de rua, cores, cheiros, sons e ritmos próprios.
Durante esse período, o Douglas se aventurou no famoso Vale da Morte, conhecido localmente como Death Road ou Estrada da Morte. O percurso começa a 4.600 metros de altitude e termina em cerca de 1.200 metros, atravessando paisagens impressionantes enquanto a vegetação e o clima mudam drasticamente. Os primeiros 22 quilômetros são asfaltados e divididos com o trânsito de carros e caminhões, o que exige atenção redobrada. Já os últimos 40 quilômetros são de estrada de cascalho estreita, esculpida na lateral da montanha, com precipícios profundos ao lado. É um desafio de coragem, concentração e resistência física, mas também uma das descidas mais icônicas do mundo, com uma vista de tirar o fôlego, nos sentidos literal e figurado.
Ao todo, foram semanas intensas e marcantes na Bolívia. Um País que nos recebeu com o coração aberto, que nos ensinou sobre simplicidade, força e coletividade. A Bolívia não é um destino fácil. Mas é um destino verdadeiro. Cada povoado, cada rosto, cada detalhe nos mostrou que existe beleza também na resistência e no que é genuíno.
Deixamos a Bolívia transformados.
Levamos conosco o sal nos olhos, o frio nos ossos, o calor humano no peito e a certeza de que o mundo é muito maior quando a gente se permite conhecer, com respeito, o que é diferente.













