Gameficação vira alternativa terapêutica para tratamento de crianças e adolescentes

Clínica conta com atendimento multidisciplinar voltado a pais e filhos

Uma clínica especializada em análise do comportamento, terapia comportamental e saúde mental tem adotado uma estratégia inusitada para lidar com o tratamento de crianças e adolescentes ao usar games como parte do tratamento.

Fundador e diretor-clínico da Revitaliz, o psicólogo Rafael Baptista de Melo usa o próprio hobby de gamer como isca para fisgar jovens mais resistentes a aderir ao tratamento. A clínica tem sede em São Bernardo, no ABC paulista.

“Sempre tive fascínio por jogos, e isso acabou virando um diferencial terapêutico. Muitas vezes, o adolescente chega na clínica a contragosto, por indicação da escola, de médicos ou dos próprios pais. Aí, falo que sou gamer, que tenho mais de mil jogos. Eles ficam interessados. Sou um psicólogo que fala a língua deles”, diz.

Durante a terapia, o psicólogo faz uma avaliação sobre os jogos mais adequados, tempo de tela e riscos.

“Há jogos que trabalham com cooperação, estratégia e tolerância à frustração. Isso também ajuda no tratamento. A gente não está só brincando. Tudo isso faz parte da avaliação e da intervenção no tratamento. A gameficação entra como uma ponte que permite criar vínculos”, diz. “Antigamente, os pais tinham medo dos perigos da rua. Hoje, os maiores riscos estão no ambiente virtual por conta das redes sociais e dos jogos”, complementa.

Baptista diz, ainda, que costuma ouvir queixas nas sessões do influenciador Felca, que denunciou a falta de moderação e a “adultização” de crianças em jogos online, como o Roblox.

Após as denúncias, o Roblox implementou mudanças nas regras de chat e verificação de idade para menores de 16 anos. “Muitos chegam no consultório inconformados, xingando o Felca. Nesse contexto, é importante trazer esses componentes lúdicos que possam auxiliar nessa fase do desenvolvimento, com jogos mais adequados”.

Contudo, ele alerta que o tratamento precisa de uma avaliação mais precisa em casos de dependência de tela e vício em jogos online. “O uso terapêutico de jogos facilita o processo, e isso independe do diagnóstico. Mas é sempre preciso avaliar a gravidade, caso a caso, do impacto que os jogos produzem na vida da criança ou do adolescente. Há casos em que há prejuízos sociais, pedagógicos e emocionais”, pondera.

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