Isso Também Importa

Semana passada falei que a ciência era a única coisa que importava. Mas não é verdade. Sim, para alegria de muita gente, direi agora: eu estava errado. Porque eu também erro, afinal sou humano. O humano é complexo, plural, subjetivo. E neste ponto a ciência não nos ajuda, porque ela não vai resolver nada do ponto de vista da nossa subjetividade. Serve para evoluirmos, não para sentirmos.

Para isso precisamos de algo como nós, subjetivo, causador de emoção, capaz de destacar o singular de cada um. E esse algo é a arte. Sem a arte não passamos de robôs cumprindo tarefas de forma automática, encorajados para cada vez mais focarmos na produtividade e menos nas distrações, como nossos sentimentos. Nos lembra que somos humanos providos de emoção. E que emoção é algo real. Apesar de não enxergarmos, podemos sentir, e esse sentir prescinde e, ao mesmo tempo, carece de explicação.

Cheguei a esta conclusão ontem à noite, enquanto ainda lia o denso A Sangue Frio, de Truman Capote, e sentia raiva dos assassinos e compaixão pela família Clutter. Mas eu também tinha pena do destino reservado aos criminosos, cuja vida praticamente os induzira a serem desprovidos de emoção. Neste caso, a arte foi manifestada na forma de escrita, mas independente de como esteja exposta, é capaz de fazer sorrir e chorar, dar medo, aflorar euforia e ódio. Além disso, é democrática, podendo ser alcançada por todos. Afinal, artista não é somente o pintor ou escultor. Arte é algo bem feito.

Não interessa o quê. Basta ser alguma realização que exigiu a aplicação de habilidade e conhecimento na execução. Uma ideia ou ideal estético com o objetivo de expressar subjetividade e transmitir um conceito ou uma mensagem. Todos temos esta capacidade, não só o ator ou o músico. Não precisamos da inspiração para uma realização artística. Duvida de mim? Pois então saiba que Picasso uma vez falou: “a inspiração pode até chegar, mas vai me pegar trabalhando”.

Talvez não tenha sido ele. E talvez a frase não tenha sido bem essa. Não importa. O importante é que além da ciência, responsável pela evolução humana no sentido objetivo, temos nosso desenvolvimento subjetivo, alcançado, também, com a arte. Em algum grau – ou em vários – objetividade e subjetividade se sobrepõem. Se complementam. Com certeza a evolução científica possibilitou o surgimento de novas formas de arte. E o próprio conceito artístico pode ser observado nas realizações da ciência.

Mas existe algo mais que une as duas. Algo em nós que caminha livremente entre ciência e arte. Inclusive consegue viajar pelo tempo, pelo espaço e pelas dimensões. Algo sobre o qual (sim, adivinhou) falarei na próxima semana.

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