Mulheres inspiram Mia Couto

O escritor moçambicano passou por Porto Alegre como quem se vê num confessionário. Contando fatos de sua obra literária e assuntos pessoais. Na palestra, que antecedeu a sessão de autógrafos de seu livro, ”Sombras da Água” na Feira do Livro ele falou do Brasil, de Moçambique, de problemas políticos e sociais. Confessou que a inspiração de seus livros aconteceu muito em função das mulheres de sua infância: ”Gosto de ouvir estórias delas.”  

Quando criança, preferia estar na cozinha com mãe e tias, para ouvi-las falar baixinho e saber dos assuntos familiares. Na sala com os homens, só havia palavras duras e vozes altas. O que lhe desconfortava. Preferia o sossego das mulheres. E elas continuam servindo de matéria-prima para os romances que escreve. A platéia gaúcha que foi ouvi-lo no Teatro Carlos Urbim, em sua maioria, eram mulheres.

Encantado com o Brasil, Mia Couto, falou do jeitinho brasileiro e fez a plateia rir muito. Certa vez, estava no Aeroporto de Salvador na Bahia indo para São Paulo. No balcão a atendente pediu a ele a carteira com o atestado da vacina da febre amarela. Sem ela, ele não poderia viajar. Naquele momento ele não encontrou na sua bolsa o comprovante. Uma senhora ao seu lado se disponibilizou a ajudá-lo. Com a carteira à mão, disse: “Olha moço tenho a minha e vou lhe dar. Ela está sem data. Você pode usar”. É esta descontração que encanta o escritor. Este jeito, que só os brasileiros tem. “As pessoas daqui não são indiferentes ao outro”, concluiu.

Uma leitora de seus livros na platéia de Porto Alegre perguntou: “E aí o senhor usou a carteira da vacina que aquela senhora lhe ofereceu?”. Evidentemente que não, disse ele. “Acabei revirando a bolsa e encontrando a minha”. Mia Couto falou ainda, que gosta muito dos cantores brasileiros: Chico Buarque e Marisa Monte. Do eterno compositor Vinícius de Moraes e dos escritores. Entre eles, Jorge Amado.

Em sua palestra enfatizou o sofrimento do povo moçambicano com a revolução em seu país. Sob o domínio português, o povo moçambicano vivia sob a mais extrema opressão. O colonialismo provocava e incentivava os conflitos entre etnias e grupos. Na capital, Lourenço Marques (Maputo, depois da libertação), havia o bairro dos índios, o dos pretos, o dos portugueses pobres, o dos portugueses médios, o dos portugueses ricos. Essa divisão se espalhava por todo o país, entre camponeses e indígenas, entre nortistas e sulistas.

“Conduziam jovens do interior, como gado, nos caminhões e colocavam-nos para servir os colonizadores em regime de trabalho escravo. Lourenço Marques virou cidade da marginalidade, da mendicância, da prostituição oficializada. De um lado, o cimento, a opulência, o brilho. Do outro lado, a insegurança, a injustiça social, a discriminação, a pobreza, a escuridão da miséria”

Mia Couto acredita que a literatura tem a missão de humanizar o mundo. Por isto escreve. Citou a música “Gente Humilde” de Vinícius de Moraes como uma de suas preferidas. Acha que os problemas políticos brasileiros serão resolvidos. Como diz a letra da música: ”Vão sacudir a poeira e dar a volta por cima”.

P.S. Agradeço publicamente o apoio na aquisição das senhas para a palestra de Mia Couto à escritora de Viamão, Fernanda Blaya Figueiró: “ Grata eterna amiga”!

 

 

 

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