Por Rafael Martinelli
O Rio Grande do Sul ainda está coberto pela memória recente da enchente de 2024 — não apenas pela lama que entrou em casas, escolas e postos de saúde, mas pelo trauma coletivo que permanece quando o céu escurece e a chuva insiste.
Foram 478 municípios atingidos, mais de 2,3 milhões de pessoas impactadas, cerca de 600 mil deslocadas e 185 vidas perdidas.
Um desastre histórico, simultâneo em múltiplas bacias hidrográficas, que escancarou limites de infraestrutura, de planejamento e, sobretudo, de articulação entre governos.
É neste contexto que o Granpal Summit 2025 chegou, na sexta-feira (12), não apenas um evento, mas um farol.
Em sua estreia — coincidindo com os 40 anos da Associação dos Municípios da Região Metropolitana de Porto Alegre — o Summit funcionou, na prática, como um fórum de reconstrução de ideias: um espaço onde experiências locais, nacionais e internacionais foram colocadas à mesa com um objetivo comum — como reconstruir cidades mais resilientes, inteligentes e humanas depois da catástrofe.
E foi justamente ali, no Espaço Guahyba lotado, na zona norte da Capital, onde no entorno ainda é possível ver as marcas da água nas paredes de residências e comércios, que Medellín deixou de ser apenas referência distante para se tornar espelho incômodo.

Medellín: da violência armada à violência climática
No painel “De Cidade Violenta a Cidade Mais Criativa”, o exemplo colombiano apareceu com força não como receita pronta, mas como método.
Medellín não venceu o narcotráfico apenas com polícia. Começou quando conectou Estado, universidades, iniciativa privada e, sobretudo, as ruas. Criou cultura cidadã, pertencimento e pacto social. Fez da educação, da mobilidade integrada e do espaço público instrumentos de transformação.
O sociólogo colombiano Jean Tromme lembrou que o ponto de virada não foi um projeto isolado, mas a decisão política de ouvir territórios, mapear sonhos e transformar problemas em agenda pública.
Medellín não copiou modelos: construiu um processo contínuo, com antes, durante e depois — exatamente o que hoje falta ao Rio Grande do Sul no pós-enchente.
Aqui, a violência não veio do tráfico, mas da água. E a lógica é semelhante: não se reconstrói apenas com obras; reconstrói-se com governança, ciência e comunidade.
“É nosso sangue, nosso calor, nossa gente”, resumiu o prefeito de Novo Hamburgo, Gustavo Finck, que participou de missão a Medellín, sobre as conexões palpáveis e impalpáveis com o exemplo colombiano.
Um mesmo sentimento que comunga o casal Luciano Cauduro e Letícia Rodrigues, que conheceram Medellín em novembro. “É uma cidade viva”, diz o empresário. “É um lugar que cuida das pessoas e é cuidado por elas”, completa a cientista.

“O RS é laboratório vivo”
“A tragédia foi ontem. O RS é um laboratório vivo para a construção de cidades resilientes”, disse o prefeito Luiz Zaffalon, em um dos painéis mais emblemáticos do Summit: Os desafios pós-COP e a sustentabilidade das cidades.
Não houve espaço para negacionismo climático. O consenso foi claro: eventos extremos não são exceção, são regra. “Os EUA e potências tentam impor ao Brasil algo que não fazem”, instigou Giovani Feltes, prefeito de Campo Bom.
Marcino Fernandes Rodrigues Jr., presidente do Ilades, foi direto ao ponto: “O compromisso é com a ciência, com a pesquisa aplicada e com um contexto econômico sustentável”.
Ao lembrar que o Brasil lidera cadeias globais como carne, soja e biodiesel, defendeu que desenvolvimento e clima não são opostos. E lançou a provocação que ecoou no evento: a COP30 deveria ser no Rio Grande do Sul, símbolo de resiliência após a maior tragédia climática do país.

Prefeitas, enchentes e o fim dos extremismos
Talvez o momento mais humano do Granpal Summit tenha vindo dos relatos das prefeitas de Estrela e Eldorado do Sul.
Em Estrela, 75% da cidade ficou submersa. Foram 1.500 casas, 12 escolas, seis postos de saúde e oito igrejas destruídas. Em Eldorado, a prefeita Juliana Carvalho — chamada de “heroína” pelo conselheiro do TCE Edson Brum e pelo prefeito de Goiânia Sandro Mabel — lembrou que hoje crianças choram quando começa a chover.
O que uniu os relatos foi a mesma mensagem: não há reconstrução possível sem integração entre entes federados e sem superação de extremismos. “Não importa se é direita ou esquerda. Precisamos de soluções”, disse a prefeita de Estrela, Carine Isabel Schwingel, ao relatar a articulação com o governo federal para garantir recursos.
Sintoma da doença política não só nacional, mas mundial, a prefeita foi notícia no Brasil duas semanas antes por, mesmo filiada ao oposicionista União Brasil, saudar a parceria com o governo federal, em evento no Palácio do Planalto, ao lado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Medellín ensinou isso cedo: ideologia não segura barranco, não protege encosta e não salva vidas.

Governança metropolitana: o que falta fazer
Sebastião Melo foi cirúrgico ao afirmar que não existe cidadão municipal, estadual ou federal — existe apenas cidadão. E que governança metropolitana sem o Estado é ficção.
A ausência de uma agência forte de planejamento regional foi apontada como um dos gargalos que a enchente escancarou.
“Precisamos convergências, construir pontes”, disse o prefeito de Guaíba e presidente do Consórcio Granpal, Marcelo Maranata. “O rio corre no meio”, lembrou o prefeito de Taquari e presidente da Granpal, André Brito.
“Aqui se faz uma verdadeira ponte entre o setor público e o privado”, observou o CEO do Instituto Caldeira, Pedro Valério, no evento que também convidou empresários como Pedro Brair, CEO da Farmácias São João.
Medellín avançou quando tratou território como sistema. O RS precisará fazer o mesmo: entender que o Taquari, que sobe dois metros por hora, exige soluções distintas do Gravataí ou do Guaíba, onde centímetros fazem a diferença e diques funcionam. Planejamento integrado não é discurso — é engenharia institucional.

O Summit como ponto de partida
Ao reunir prefeitos, tribunais de contas, universidades, startups, empresários e gestores públicos, o Granpal Summit 2025 mostrou que pode se tornar mais do que um evento anual. Pode ser o embrião de um pacto permanente de reconstrução, inspirado em metodologias como a de Medellín: ouvir antes, planejar junto, executar com qualidade e manter com participação social.
O RS não precisa copiar escadas rolantes ou teleféricos. Precisa copiar a metodologia do pertencimento, da ciência aplicada e da coragem política de decidir olhando para 20 ou 30 anos — não para a próxima eleição.
A enchente de 2024 foi a violência das águas. A resposta não pode ser episódica. Ou o Estado aprende com quem já atravessou o caos — como Medellín — ou seguirá reconstruindo cidades para o próximo desastre.
E, desta vez, resta praticamente um consenso, ele virá.
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