Coluna do Gustavo: Fazer terapia

Várias vezes recebi de pessoas próximas a mim o conselho de fazer terapia. Quando comentava com algum conhecido sobre terem me sugerido consultar um terapeuta, a recepção da ideia era sempre positiva. Muito positiva. Ou transpareço necessitar de algum acompanhamento psicológico, ou meu círculo de amigos e familiares é bastante adepto da prática. De qualquer forma, apesar dos incentivos, nunca fiz. Pelo menos não a tradicional.

Refiro como terapia tradicional aquela onde é preciso sentar-se e conversar com um profissional sobre aflições, contar como foi a semana e falar de angústias pessoais sérias, capazes de prejudicar o desempenho e o convívio social. Já a não tradicional, pelo que algumas pessoas me contam, ocorre quando achamos algo para fazer que nos traz paz de espírito e ajuda a esquecer dos problemas ou, pelo menos, a alinhar os pensamentos durante a atividade.

Nem sei quantas vezes já ouvi comentarem algo do tipo "pra mim, cozinhar é terapêutico", ou "correr é minha terapia". Ou seja, cada um tem a sua e, pelo visto, é comum classificar um exercício ou até mesmo um passa-tempo como tratamento psicológico. Até entendo que desenvolver o intelecto lendo ou escrevendo, gastar energia praticando esportes e se distrair com algum hobby ajudam muito a preservar a saúde física e mental, mas tenho certa dificuldade de aceitar o fato de que se eu estiver fazendo algo que gosto, isso significa que estou fazendo terapia.

Fica ainda mais difícil quando ouço argumentos como "faço isso pra aliviar o estresse", "só assim pra aguentar viver na nossa sociedade" ou "é minha válvula de escape pra tanta pressão". As atividades pelas quais nutrimos interesse, apesar da abstinência delas ter a capacidade de piorar consideravelmente nosso humor, não passam de práticas corriqueiras. Me soa muito forçado atribuir à elas o status elevado de uma ciência usada para melhorar nossa compreensão do mundo, das pessoas e de nós mesmos. Sinto que a estaria desvalorizando se dissesse que tocar um instrumento, mexer nas plantas ou fazer trabalho voluntário são minha terapia. 

Mesmo assim, confesso que entendo porque é tão fácil uma atividade mundana - com a mera capacidade de nos trazer um pouco de paz - ser confundida com um acompanhamento profissional terapêutico. E só agora, no final da crônica, cheguei no ponto onde queria chegar. Gostaria mesmo era de desenvolver esta minha teoria. Uma teoria sobre, atualmente, ser tão comum nos sentirmos obrigados a realizar tantas funções que não são de nosso interesse e isso nos causar tamanho mal-estar que, quando praticamos uma simples atividade prazeirosa, ela passa a ser considerada um tratamento contra este mal. Mas somente vou poder aprofundá-la na semana que vem.

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