Há políticos que, em cima de um caixote, ou no mic do celular, fazem carreira falando só para seus convertidos. Paulo Pimenta, que nesta segunda-feira (1º) cumpre agenda em Gravataí, sabe conversar com os outros. É uma diferença importante. Que talvez passe despercebida para quem acompanha apenas os vídeos de embates parlamentares que viralizam nas redes sociais, os cortes de discursos inflamados ou a polarização permanente entre lulismo e bolsonarismo que domina o debate público brasileiro.
Mas quem observa os bastidores da política gaúcha há algum tempo conhece outra versão do político petista. A do articulador. A do homem que atende prefeitos de diferentes partidos. A do ministro que virou espécie de embaixador informal dos municípios gaúchos junto ao governo federal após a tragédia da enchente de 2024. A do político que aprendeu com Lula que é possível disputar eleição sem deixar de conversar.
Formalmente, veio para encontros da Frente Ampla em apoio à chapa Juliana Brizola (PDT) e Edegar Pretto (PT) ao Palácio Piratini, e à sua candidatura e de Manuela d’Ávila (PSOL) ao Senado, visitas ao Sindicato dos Trabalhadores na Indústria da Borracha (STIAB), ao Sindicato dos Metalúrgicos e reuniões com advogados.
Mas a agenda real parece um pouco maior. Porque ela ajuda a explicar o jeito de fazer política que transformou o hoje líder do governo Lula na Câmara dos Deputados em uma das figuras mais influentes do Rio Grande do Sul.
Aos 60 anos, no sexto mandato como deputado federal, ex-ministro da Secretaria de Comunicação Social e ex-ministro extraordinário da Reconstrução do Rio Grande do Sul após a enchente de 2024, Pimenta parece viver aquele estágio raro da vida pública em que o político já não precisa provar quem é. Pode dedicar-se a construir. E construir, para ele, quase sempre significa aproximar.
O início da passagem por Gravataí exemplifica isso. Ao lado da vereadora Vitalina Gonçalves (PT), Pimenta visitou o presidente da Câmara de Gravataí, Dilamar Soares (Podemos). Confirmou, para os vereadores e a secretária-adjunto de Parcerias Estratégicas, Projetos e Captação de Recursos, Simone Lourenci, que o governo Lula deve assinar no próximo mês o convênio do programa Periferia Viva para Gravataí. São R$ 39 milhões.
O destino do recurso também diz muito. Vai para o Nova Conquista, região do Rincão da Madalena, uma das áreas historicamente mais vulneráveis do município. O projeto prevê urbanização, pavimentação, drenagem, regularização fundiária, escrituração das moradias, parque linear, ecoponto e melhorias estruturais capazes de alterar permanentemente a qualidade de vida da população local.
É o tipo de política pública que tem a assinatura clássica do lulismo. Investimento pesado onde historicamente o Estado chegou pouco. Não por acaso, o programa integra o Novo PAC e foi concebido para urbanização de favelas e comunidades vulneráveis.
Mas talvez o trecho da conversa com potencial para provocar mais interesse tenha sido outro. Pimenta manifestou apoio à construção de uma frente regional em defesa de um hospital para Gravataí.
Perguntou sobre o antigo prédio do Intercity. Demonstrou interesse pelo tema. E lembrou um caso que conhece bem. O Hospital Universitário de Canoas.
Não é uma comparação aleatória. O HU praticamente saiu da UTI institucional nos últimos meses graças à articulação entre município e governo federal. O hospital passou de um cenário de risco de redução de serviços para um projeto de expansão que prevê até 600 leitos e investimento federal permanente de R$ 150 milhões anuais.
A lembrança ajuda a compreender a lógica política de Pimenta. Antes de perguntar quem governa uma cidade, ele costuma perguntar do que a cidade precisa.
Quem acompanha a política regional sabe que essa característica não é nova. Costumo lembrar um exemplo. Talvez o mais emblemático. O prefeito de Canoas, Airton Souza, é do PL. Bolsonarista. Publica fotografias com Flávio Bolsonaro. Jamais escondeu seu posicionamento político. Ainda assim, chama Paulo Pimenta de “parceiro”.
Não é figura de linguagem. Durante a reconstrução pós-enchente, os dois construíram uma relação institucional que ajudou a levar recursos federais para a cidade. Foram obras. Programas habitacionais. Reconstrução de infraestrutura. Investimentos hospitalares. Recursos emergenciais.
Reputo o episódio ensina algo que parte da política brasileira desaprendeu. Diques não têm partido. Hospitais também não. Nem bairros pobres.
A agenda de hoje inclui ainda duas visitas que ajudam a compreender o momento econômico da região. Primeiro, o STIAB, representando trabalhadores da cadeia da borracha. Depois, o Sindicato dos Metalúrgicos.
Ali está uma das grandes preocupações atuais de Gravataí. A preservação da indústria automotiva nacional. Nos últimos anos, a chegada agressiva das montadoras chinesas ao mercado brasileiro, especialmente a BYD, abriu um debate que une personagens improváveis. Empresários e sindicalistas. Liberais e desenvolvimentistas. Prefeitos e trabalhadores.
Em Gravataí, a preocupação é objetiva. A GM continua sendo um dos motores econômicos da cidade. Preservar empregos, garantir investimentos e fortalecer a indústria nacional deixou de ser apenas uma pauta sindical. Virou pauta estratégica.
E seria impossível uma agenda sindical de Paulo Pimenta em 2026 ignorar outra bandeira que ganhou força entre trabalhadores. O fim da escala 6×1.
O deputado classifica a mudança como um novo passo civilizatório para o Brasil. Argumenta que o país ampliou produtividade e tecnologia nas últimas décadas sem revisar de forma significativa sua jornada de trabalho. Segundo ele, a escala atual atinge especialmente trabalhadores de menor renda, muitos deles sem tempo para conviver com os filhos, investir em qualificação profissional ou cuidar da própria saúde.
Para Pimenta, a adoção de jornadas como a 5×2 representa uma questão de dignidade e valorização do trabalho.
O estilo Lula
Ao fim, a agenda de Gravataí ajuda a entender por que Paulo Pimenta continua sendo uma das figuras mais influentes do campo lulista. Porque ele parece ter absorvido uma característica central de Lula.
A política das pontes. Conversa com sindicatos. Conversa com empresários. Conversa com prefeitos petistas. Conversa com prefeitos bolsonaristas. Conversa com presidentes de Câmara de outros partidos. Conversa com quem concorda. E com quem não concorda.
Nem sempre funciona. Nem sempre produz consenso. Mas produz algo cada vez mais raro. Canal aberto. Com tantas ferraduras ideológicas calçadas de forma inadequada, isso pode parecer pouco. Na verdade, é justamente o que permite que R$ 40 milhões cheguem a um bairro pobre. Que permite se falar em um hospital. Que empregos sejam defendidos. Que permite esquerda e direita sentar à mesma mesa sem transformar a reunião em guerra cultural.
Incrível, mas no Brasil da última década, isso é notícia.





