Quando símbolos tentam mascarar ações: Se vivo, como agiria Tapir Rocha durante a pandemia?

Na sexta-feira (15), o busto em homenagem a Tapir Tabajara Canto da Rocha, considerado a maior figura política de Viamão, no Centro, amanheceu com máscara. A sacada obedece uma tendência mundial de usar monumentos e outras peças do mobiliário urbano para destacar a prevenção ao novo coronavírus. Nada a reparar até aqui, mas tudo que se segue é passível de crítica.

Sempre briguei com a tendência da sociedade em valorizar mais a forma do que o conteúdo. É uma prática segregadora, desleal a ponto de distorcer a realidade. Infelizmente, é o conceito que rege a publicidade. Discorda? Então pare e pense se você nunca comprou algo de que não precisava só pela embalagem, ou se apaixonou por alguém pelo que aparentava e depois se arrependeu.

“A mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta”. A frase atribuída ao ditador/pretor Júlio César (63 antes de Cristo), representou o pensamento do Império Romano por décadas e mostra que por a imagem acima dos fatos é recurso mais velho do que se imagina.

De volta a 2020, os exemplos se multiplicam. Seja Bolsonaro usando máscara enquanto nos bastidores diz "E daí?" para as mais de 15 mil mortes pela COVID-19, ou Russinho de viseira no gabinete assinando decretos sem pé nem cabeça. Tanto faz se o presidente põe máscara (quase sempre virada) apenas para dizer que está com uma no rosto, ou se Russinho manda cobrir o busto do Tapir. As ações práticas de ambos são os verdadeiros símbolos de como de fato encaram a pandemia. 

Do decreto 018/2020, o primeiro tratando da COVID-19, até o 050/2020 de ontem (15), o que se vê é descaso com a população. São textos ambíguos, com erros de informação e meramente copiados de outras cidades. Pior, não são fiscalizados, ou seja, apenas para constar juridicamente e evitar complicações com o Ministério Público. É a máxima romana de "parecer honesto".

Nesta manhã em que a cidade completa dois meses das primeiras normas em Viamão, o comércio não essencial estava liberado para funcionar duas horas a mais por dia. As porteiras se abrem mais e mais, enquanto a doença avança. Nos números de ontem, quando o Tapir virava símbolo da resistência contra o vírus, o município tinha 33 casos confirmados, uma morte, quatro pessoas internadas e sete se recuperando em casa. E na mesma sexta-feira, o decreto 050/2020 dava a benesse aos empresários de voltarem praticamente aos horários de antes da pandemia.

Maio é o pior momento do coronavírus em Viamão. É o mês do primeiro óbito e do salto de 50% nas infecções - são 11 em 13 dias ( de 1º a 13/5), contra 22 em 41 dias (entre 21/3 e 30/4). Quem se apega na baixa incidência, na comparação com outras regiões do país, vibra quando a caneta do Russo se agita.

É tanto descaso do prefeito em exercício com a crise de saúde que ele próprio não lê o que assina. Ou é isso, ou não entende o que está lendo. Se ao menos passasse os olhos, não rabiscaria um decreto que não tem o artigo 3º, que tem artigo 9º sem redação, que após o 9º repete do artigo 4º ao 9º (agora sim com redação) e só então retoma do 10º. O pior de tudo é que o 050/2020 foi editado para corrigir o decreto 048/2020, publicado um dia antes. Portanto, outra correção (dessa vez reparando o 050/2020) deve aparecer na segunda-feira (18).

 

Reprodução do artigo 9º do decreto municipal 050/2020 com erros de redação: do 9º para o 4º

 

Um gestor público que assina sem saber o que está tornando norma ao menos deve ter gente de confiança que acerte na redação, ou leia em seu lugar. O mesmo vale para o secretário de Administração, Orlando Gomes Júnior, que empresta seu nome aos textos.

Assim como está, nenhum dos dois consegue transmitir a imagem necessária de honestidade.

Em comum aos erros na construção das normas, está a falta de fiscalização. Ou alguém acredita que o transporte público está cumprindo as restrições de ocupação dos coletivos e oferecendo as condições de higiene preconizadas nos decretos? É só dar uma olhadinha nos ônibus nos horários de pico.

Quantos respiradores foram comprados? Quantos testes para a COVID foram realizados na população? Por que usar a pandemia como justificativa para suspender sindicâncias, processos administrativos, punições e impedir a exoneração de cargos comissionados (CCs)?

Se o trabalho fosse de fato sério, mandariam dar jeito nas filas na porta da Caixa Federal do Centro, distante apenas uma quadra do busto do Tapir e do Gabinete do Prefeito. 

 

Reprodução do artigo 56 do decreto municipal 048/2020

 

Enfim, Viamão enfrenta o corona "para inglês ver", seja por culpa do negacionismo pregado pelo presidente, pela falta de habilidade ou descaso das autoridades políticas da antiga Capital. E muitas dessas figuras são as mesmas que usam a imagem de Tapir para tentar transmitir seriedade.

A julgar pelo que escuto da biografia do homem considerado o mais expressivo entre os gestores públicos que o município já teve, não tenho dúvidas de que ele usaria máscara. E jamais levaria a pandemia nas cordas a ponto de assinar documentos sem ler.  

 

Participe de nossos canais e assine nossa NewsLetter

Compartilhe esta notícia:

Facebook
WhatsApp
Twitter
LinkedIn
Pinterest

Conteúdo relacionado

Exaustão

Salete havia decidido mudar de vida. Morava num pequeno sítio no interior de São Paulo. Mas pensava que seria mais feliz na capital.Engano profundo. Na capital moravam os grandes vícios.

Leia mais »

Cachorro e Cuia

Nesta cidade praiana o comum eram cachorros e cuias. Não dá pra dizer que não era umacidade sonho gaúcho. Era. Outono,quase inverno,e as poucas pessoas que circulavam na ruatinham este

Leia mais »

Receba nossa News

Publicidade

Facebook