Enigma

Que personagem mais desolador povoava à sua mente? Nas noites de temporal uma compulsão de sons o alucinavam. Uivava. Constrangia a vizinhança que colocava todos sentidos em seu apartamento.Sua morada se assemelhava à um castelo medieval.Lustres em formas de torres. Raios e chuva, assustador.Digno de uma profunda análise psiquiátrica.

Uma lamparina multicolorida na entrada do apartamento sinalizava que ali morava um ser exótico.Quando começava o temporal a luz apagava.O morador não escondia medos, fantasmas nem seu conteúdo psíquico. Muitas madrugadas pensadas em seres que nem existiam. Muitas horas de insônia. Muitos traumas avolumavam-se no desconhecido. Seus olhos de águia, tudo viam. Exceto, o fundo do poço onde estava mergulhado. Aqueles imensos olhos azuis pareciam querer desvendar e ser desvendado.Fitava as pessoas na tentativa de penetrar no subconsciente delas. A maioria ficava embaraçada com o fato.Só uma, em especial, decifrava a situação. Era médica psiquiátrica. Por questão ética e humana, deixou de atendê-lo.O consultório ficou pequeno para tanto martírio.

Em criança, era avesso à amizades. Solitário, seguia a vida sempre, sem comunicar-se.Depois, adulto interessou-se por viagens a lugares misteriosos. O encanto das coisas para ele, era alicerçado em sustos e surpresas.Preferia a solidão, às pessoas chatas. A realidade da doença mental era evidente. Seu cérebro um grande labirinto. Difícil entendê-lo nos detalhes de sua inquietação existencial.
Lapidava seu espírito com leituras complicadas. Existia sem tão pouco se importar com a vida. Nem se livrava das amarras .Nem evoluía espiritual e culturalmente. Era um estudioso dos mistérios. Encarava as pessoas, como se suas pupilas,decifrassem o código genético delas.Figura complicada.
Por volta dos cinquenta anos, exilou-se numa montanha num dos picos mais altos da geografia brasileira. Virou quase um faquir. Comia pouco e respirava pouco também.Do alto da montanha
contemplava o mundo e a todos. Como um sortilégio ou algo que se nutria com o êxtase de estar vivo. A vida já o entendiava. As pessoas também. Seus olhos, eram faróis, sempre acessos. Piscavam. Jamais entendeu o enigma. (Ana D ́Avila)

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