COM VÍDEO | O que há no endereço onde o Estado quer por um presídio?

Casarão de 1832 que teria pertencido a Bento Gonçalves é a sede do Centro de Pesquisa da Fepagro em Viamão | Guilherme Klamt

Diário foi conferir o que acontece dentro dos 148 hectares da unidade da Fepagro em Viamão onde o Estado pretende erguer um presídio até o final do ano

 

A Fundação de Pesquisas Agropecuárias do Estado, a Fepagro, foi criada em 1994 pelo então governador Alceu Collares (PDT) como forma de reunir em uma única figura jurídica toda a pesquisa gaúcha ligada ao campo. A agropecuária e toda sua cadeira produtiva era na época, antes dela e ainda é agora a maior expressão do PIB daqui.

Como fundação, a Fepagro poderia captar recursos de editais nacionais e estrangeiros -- uma forma de financiar pesquisas sem que o Estado tivesse que meter sozinho a mão bolso. E assim foi -- até agora.

Este ano, o governador José Ivo Sartori extinguiu diversas fundações e autarquias do Estado que, segundo ele, não se encaixavam no papel que seu governo pensa para o Rio Grande do Sul. Entre elas, a Fepagro. Agora, é tudo com o Departamento de Diagnóstico e Pesquisa Agropecuária, ligado à Secretaria de Agricultura.

Nos mesmos dias em que o Estado vivia o impacto da notícia da extinção, veio a ideia de que parte de uma área que é da fundação em Viamão serviria para sediar um presídio público estadual para mais de 400 apenados.

Confira em vídeo a visita que o Diário fez ao Centro de Pesquisa da Fepagro em Viamão:

 

Fama que precede

 

Independente do nome que se chame, a Unidade Experimental de Viamão já tinha sua fama. Os trabalhos de pesquisa haviam iniciado em 1966, quando o Estado recebeu as terras da antiga fazenda Águas Belas -- ali, é a nascente de um riacho que tem o mesmo nome. Inicialmente, a área seria destinada à pesquisas com hortaliças.

O primeiro diretor da unidade, Osmar Salin, investiu na construção de galpões e casas de vegetação onde foram possíveis as primeiras pesquisas com fruticultura de clima tropical, como abacaxizeiros, maracujazeiros e bananeiras. Foi ele também quem recuperou a casa que servia de sede para a fazenda antiga e cuja fama precedia a de todos os demais 148 hectares da propriedade:

-- Contam que pertenceu a Bento Gonçalves -- repete a atual diretora da unidade, a pesquisadora Dra. Goreti Reis.

Construída em 1832, a casa e uma figueira que fica em frente e tem para mais de 200 anos já foram cenário, por nove anos, do programa Galpão Crioulo, da RBS TV. Nos anos 90, a sede da unidade foi cedida ao Movimento Tradicionalista Gaúcho, o MTG, que sob um pedido da família Fagundes, autorizou as gravações por ali. Assim, casa e figueira ficaram famosas nas telinhas todas as manhãs de domingo.

 

Figueira bicentenária protege a entrada da casa principal da fazenda

 

Telinhas e telonas. Goreti e dois servidores que atuam na unidade contam que a estação de Viamão já serviu de cenário para diversos filmes.

-- Noite de São João. Eles fizeram umas cabanas de madeira e ficaram mais de um mês ali -- conta seu Darci Fucilini, auxiliar que está há mais de uma década em Viamão e já acumula 28 anos de Fepagro.

O filme é de 2003. Dirigido por Sérgio Silva, teve os atores globais Marcelo Serrado e Dira Paes como destaque. Mais recentemente, em 2014, a sede da unidade também recebeu a equipe de "O Tempo e o Vento", filme brasileiro baseado na obra de Erico Verissimo.

 

A cana e o butiá

 

A unidade da Fepagro em Viamão conta com nove funcionários e recursos que só dão para folha de pagamento, água e luz. São três pesquisadores, dois técnicos e quatro servidores de campo -- como o seu Davi, mão para toda obra. Atualmente, a unidade trabalha em três grandes pesquisas que seguem em andamento apesar da extinção -- mas se contar tudo o que fez parte da rotina da Fepagro em Viamão nos últimos anos, dá um livro.

-- Pesquisamos pasto, reprodução de ovinos, fitoterápicos, nativos, enfim. Muita coisa -- resume a Dra. Goreti.

Viamão participou, em 2006, dos estudos de adaptabilidade que deram origem ao cultivo de oliveiras no Rio Grande do Sul. Hoje, há inclusive a produção de azeites extra-virgem feitos somente com frutos colhidos em solo gaúcho.

Alex Nunes, técnico agropecuário que há três anos está na unidade, leva o Diário até uma lavoura de cana de açúcar -- a mesma que se enxerga quando passa pela frente da propriedade, na Estrada Capitão Gentil Machado de Godoy.

 

Cultivares de cana podem ser vistos por quem passa pela avenida 

 

-- Esse plantio é de uma pesquisa em parceria com a Petrobrás -- conta.

Segundo ele, o estudo feito ali já tem quatro anos e a primeira fase foi encerrada no ano passado.

-- Vai mais dois anos ainda.

O foco da pesquisa é encontrar a melhor variedade de cana para produção de biocombustíveis -- mas os resultados, depois, serão públicos e estarão disponíveis para qualquer interessado.

-- Vai se chegar a conclusões sobre teor de açúcar, adaptação ao solo, crescimento da planta, enfim. Tudo isso é útil para outra lavouras -- diz Alex.

Ao lado da cana, palmeiras com pouco mais de 1,70 metros de altura -- um homem adulto em pé -- chamam a atenção.

-- São butiás. Esse é o único pomar do gênero em todo o estado -- afirma o técnico agrícola.

 

Butiá é uma espécie de palmeira nativa do RS. Hoje, sua cadeia produtiva é extrativista

 

A pesquisa iniciada ali em meados de 2008 e 2009 pode tirar a fruta da marginalização. Hoje, todo butiá comercializado no Rio Grande do Sul provém de uma cadeia produtiva extrativista. Em outras palavras, que vende colhe os frutos que acha por aí.

-- Não há cultivo -- complementa Alex.

-- Temos espécies aqui com tanto açúcar que o cara até acha que está comendo uma bala -- compara seu Davi.

-- Na verdade o que se quer com esta pesquisa é encontrar variedades do butiá com alto teor de açúcar, que é melhor para indústria de sucos, por exemplo. Também pesquisamos a germinação da planta, espécies que frutificam mais rápido e até que são imunes a parasitas como aqueles bichinhos que dão nos coquinhos -- conta Alex.

As pequisas de cana de açúcar e butiá também foram registradas em vídeo. Confira:

 

Um açude com um mundão de água

 

A menina dos olhos  da propriedade é o açude que ocupa uma área superior a 11 hectares. Açude, na verdade, não:

-- Aquilo é uma barragem -- explica outro pesquisador do Centro, o Dr. Marco Aurélio Rotta.

Segundo ele, o riacho Águas Belas nasce em uma área próximo ao Condado de Castella e desce até a propriedade da Fepagro, onde foi represado em uma obra que remonta aos anos 50.

-- Formou esse enorme açude aí.

Em certos trechos, a profundidade da área alagada ultrapassa os 12 metros.

-- É muito fundo! -- alerta o seu Darci.

No local, Alex Nunes conta que serão feitos estudos sobre psicultura em confinamento, provavelmente com tilápias e carpas. Dois tanques que já fazem parte da propriedade tiveram que ser desativamos por conta da proximidade que tem do riacho, o que a lei proíbe.

-- Estamos construindo gaiolas e uma fiação de aço para prendê-las -- antecipa Alex.

-- Foi um longo trabalho de limpeza. Há uns anos estava tudo tomado de plantas aquáticas -- diz o Dr. Rotta.

 

Pesquisas seguem. Será?

 

A ideia de ter o presídio como vizinho já convive com a rotina no Centro de Pesquisa. Dra. Goreti conta que equipes da secretaria de Segurança estiveram no local e fizeram medições, mas não anteciparam nada sobre o projeto da cadeia pública.

Duas áreas dentro dos 148 hectares foram inspecionadas pelo Estado -- uma mais à frente da propriedade, outra além do riacho Águas Belas, acima do açude.

Todo o restante da área deve seguir destinado à pesquisa.

-- A gente agora está ligado à Secretaria de Agricultura mas, em princípio, nosso trabalho continua. Temos pesquisas e estudos em andamento -- confirma Goretti.

Cada estudo, para ser validado tecnicamente, precisa de um período nunca inferior a três anos para as primeiras conclusões.

-- A gente vai comparando ano a ano para ter certeza do resultado.

A equipe que trabalha na Fepagro já ouviu do interesse de outras entidades em assumir parte da área. No entanto, preferem esperar até que uma definição oficial seja informada.

-- Teve gente aqui, sim. Mas não sabemos de nada ainda. E vamos em frente -- garante a Dra. Goreti.

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