Deixem em paz os gambás da Redenção

Recomendamos o artigo do jornalista e historiador Juremir Machado da Silva, publicado pelo Matinal Jornalismo


O título desta crônica poderia ser apenas um jogo de palavras meio bobo. Os gambás em questão, porém, não são eventuais bêbados, mas bichinhos mesmo. A comoção é grande. Aos fatos. A Prefeitura de Porto Alegre resolveu instalar um bar no parque da Redenção. Por um aluguel irrisório. A questão é ideológica. O bar entrou em confronto com moradores do local: gambás e outros animais. Os bichinhos sentem-se atraídos pela comida. Então a saída encontrada foi espalhar armadilhas para capturar aqueles que são os verdadeiros donos do lugar. Veneno também está sendo usado contra ratos. Come quem quiser. É a filosofia.

Uma bióloga viu as armadilhas e ficou chocada. Integrantes do Coletivo Preserva Redenção mobilizaram-se. O bafafá está enorme. Com razão. Não bastasse o corte de árvores, a circulação de carros e a ocupação do parque com comércio, os animais passaram a ser vistos como problema. Parque é como a rosa da poesia: um parque é um parque. Não precisa ser nada mais. Não existe para dar lucro. Não cabe em planilha Excel. Salvo na visão do neoliberalismo bolsonarista que comanda a prefeitura da capital gaúcha. Esse tipo de opção urbanística já caducou na Europa. Como tudo chega atrasado no Brasil, progressistas, sob diversos nomes e siglas, que normalmente são a ala mais atrasada da política, correm para vender a cidade com a falsa promessa de serviços melhores e com os velhos argumentos da degradação evidente.

A Redenção precisa de mais árvores. É mais fácil ver uma árvore ser derrubada ali do que alguma ser plantada. Situado no coração de Porto Alegre, o Parque da Redenção enche de cifrões os olhos de gente que não o frequenta, mas gostaria de faturar com ele. Faz pensar no que foi feito no Pontal do Estaleiro. A ideia era construir um condomínio de luxo com janela privilegiada para o pôr do sol. A população não deixou. A lei foi driblada e ergueu-se um horrendo prédio de vidro para shopping e hotel. A propaganda, claro, já vende janelinhas para o pôr do sol do Guaíba. É caro. Ao menos, tem rodízio. Tudo em troca de um parquinho, uma área ajardinada pelos que ganharão fortunas com suas janelinhas ensolaradas. Cidade atrasada não crê em patrimônio público. Prefere bar à preservação da fauna e da flora.

Qual é a solução racional para a questão dos gambás na Redenção? Tirar o bar dali. Há bares em todo o entorno do parque. Frequentar aquele bar é a coisa mais brega que pode existir em Porto Alegre. Os modernos são terríveis. Lembro da época em que se apaixonaram por sacolas plásticas e passaram a condenar as sacolas de pano como feias, sujas e antigas. Coisa de velhos, diziam. A Redenção pede socorro. Quem vai salvá-la dos seus predadores artificiais com crachá e ideologia calculista? Os gambás, que não fazem mal a quem quer que seja, bem instalados na cadeia alimentar à qual pertencem, estão na linha de mira. A privatização da Redenção, com o nome eufemístico de concessão, ainda não foi descartada. Como diria Ailton Krenak, O futuro é ancestral. Pertence aos que sabem se integrar com a natureza.

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