Mauro Cid empurra o Exército para a lama ao ir fardado à CPMI do Golpe

Recomendamos o artigo do jornalista Leonardo Sakamoto, publicado em sua coluna no UOL


Mauro Cid, ex-faz-tudo de Jair Bolsonaro, caixa eletrônico de primeira-dama, serviço de atendimento a oficiais golpistas, fraudador de cartão de vacinação, chegou fardado à CPMI dos Atos Golpistas, na manhã desta terça (11), por orientação do próprio Exército. Dessa forma, a corporação acaba abraçando o tenente-coronel, até o pescoço em um lamaçal antidemocrático que ele ajudou o ex-presidente a criar.

“O Centro de Comunicação Social do Exército informa que o tenente-coronel Mauro César Barbosa Cid foi orientado pelo Comando do Exército a comparecer fardado à Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI), pelo entendimento de que o militar da ativa foi convocado para tratar de temas referentes à função para a qual fora designado pela Força”, diz o comunicado do Exército, em um grande tiro no pé.

A inquirição estava em andamento quando este texto foi escrito, mas Cidão – como foi chamado pelo coronel Jean Lawand Júnior em uma troca de mensagens golpistas pelo WhatsApp – exercia o seu direito de ficar em silêncio para não se incriminar. Mas com a farda, ele ajuda a incriminar os militares, com a chancela dos próprios.

A relatora da CPMI, a senadora Eliziane Gama (Cidadania-MA), pediu a Cid que “em nome da farda que está vestindo”, separasse o joio do trigo, apontando os militares golpistas. Mesmo assim, preferiu se calar.

E muita coisa envolvendo os militares precisa ser explicada.

A Polícia Federal encontrou uma minuta golpista e estudos para apoiar um golpe de Estado no celular do tenente-coronel. O texto permitiria ao seu antigo chefe convocar as Forças Armadas em caso de perturbação de caos. Caos que poderia surgir, por exemplo, através de uma horda de bolsonaristas que invadisse e vandalizasse o Palácio do Planalto, o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal no dia 8 de janeiro.

Ou com uma bomba que explodisse o aeroporto de Brasília colocada em um caminhão de combustível por bolsonaristas no dia 24 de dezembro. Ou ainda com a queima de ônibus e veículos na capital federal por bolsonaristas no dia 12 de dezembro após a diplomação de Lula.

A minuta estava em mensagens trocadas entre Cid e o sargento Luís Marcos dos Reis – ambos presos na operação que investiga a fraude nos registros de vacinação de Bolsonaro. Também foram encontradas propostas sobre como convencer a cúpula do Exército a entrar na empreitada.

A primeira minuta golpista, aliás, foi encontrada na casa do ex-ministro da Justiça de Bolsonaro, Anderson Torres. O objetivo seria permitir que as Forças Armadas interviessem no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e melassem a eleição vencida por Lula.

Pudemos ler conversas sobre um golpe de Estado entre o ex-major Ailton Barros, amigão do ex-presidente, com Mauro Cid. Depois, o coronel da reserva Élcio Franco, homem de confiança do governo, que foi colocado como secretário-executivo do Ministério da Saúde para ajudar o general Eduardo Pazuello, apareceu na história.

Barros e Franco discutiram por áudios as possibilidades para um golpe de Estado, incluindo a mobilização de 1,5 mil militares a prisão do ministro Alexandre de Moraes. As conversas, que fazem parte dos áudios encontrados nos celulares apreendidos.

Vídeos do circuito interno do Palácio do Planalto, captados durante a invasão bolsonarista no 8 de janeiro, apontam que um grupo de militares que estava por lá no momento do quebra-quebra foi conivente. Conversavam, riam, checavam os celulares.

Depois, o Exército impediu a entrada da PM para prender golpistas no acampamento montado em frente ao seu QG. Imagens de dois blindados mostravam que o Comando Militar do Planalto falava sério, chocando muita gente que apostava que a ditadura havia terminado em 1985.

Isso deu tempo a muitos golpistas fugirem. Sob a chantagem de que haveria uma “noite de sangue” se a PM entrasse para prendê-los no acampamento, Lula aceitou a proposta do então comandante militar do Planalto, general Dutra de Menezes, para que isso ocorresse apenas na manhã do dia seguinte.

O então comandante do Exército, general Júlio César de Arruda, também teria avisado ao ministro da Justiça Flávio Dino que ninguém seria preso naquela noite. Treze dias depois, Lula escolheu o legalista Tomás Ribeiro Paiva para substituir Arruda.

Mauro Cid pode ficar em silêncio em toda a CPMI, como fez em depoimento da PF. Neste caso, seu celular continuará gritando por ele, acusando o ex-presidente da República, sua família e aliados. Sem contar que Alexandre de Moraes e a PF estarão sempre um passo à frente da comissão, produzindo notícias e dando a linha.

Uma parte dos militares estava sim com Jair. Ele não teve apoio que queria para o seu golpe de Estado, inclusive por conta da parcela legalista da cúpula das Forças Armadas. Mas a participação de militares da reserva e da ativa no 8 de janeiro fez toda a diferença para que golpistas pudessem quebrar tudo e fugir sem serem detidos ou presos.

A farda reluzente de Mauro Cid só confirma isso.

Participe de nossos canais e assine nossa NewsLetter

Compartilhe esta notícia:

Facebook
WhatsApp
Twitter
LinkedIn
Pinterest

Conteúdo relacionado

Comunicação moderna

Para aqueles que tem mais de 70 anos como eu, causa estranheza esta linguagem moderna de tudo. Principalmente nos computadores. Alguém já recebeu em sua telinha, frases curiosas tipo: “Prove

Leia mais »

Receba nossa News

Publicidade

Facebook