A previsão meteorológica anunciava no início da semana, uma grande mudança no clima. Todos se assustaram. Moravam a cinquenta metros do mar e estavam com muito medo. O que sucederia se as ondas avançassem. Se o mar invadisse a orla inundando os halls dos edifícios.
No início da noite uma ventania forte balançou todas as árvores da praça em frente ao apartamento. O vento foi crescendo. E as oito horas da noite o ciclone já era visível.
Rita numa discussão sem sentido discutia com seu namorado. Nesta hora ela nem prestava atenção na rua com a ventania varrendo tudo. Não se entendia com ele. A discussão se transformou e se avolumou. Já não era possível permanecer na sala junto a ele. Ela olhou a rua. Tentou fugir, mas teve receio que o vento a fizesse voar. Tal a intensidade. Tal o barulho que fazia.
Mesmo assim e magoada resolveu enfrentar a chuva . Morava na mesma rua do namorado. Era fácil deixa-lo brigando sozinho. Já que não o estava entendendo. Ele era bipolar e ela muito sensível e nervosa. Olhou pela janela e tomou a decisão de desaparecer dali. Daquele ambiente tóxico cheio de palavras de baixo calão e assuntos marginais. Na proporção do vento abriu a porta e enfrentou o ciclone.
O mega ciclone vinha do mar e as rajadas de vento quase desequilibravam seu corpo. Correu e sentiu que a chuva estava engrossando. Cambaleante levou um trupicão e caiu, tendo suas sandálias presa num vâo do dedo do pé esquerdo machucando seu tornozelo. Se arrastou e resolveu ficar descalça jogando as sandálias em sua bolsa.
Na metade do caminho de casa já estava encharcada de chuva. Sentia seus pés nús junto às pedras do calçamento. Mas não era possível desistir do caminho e foi indo pelo calçamento até avistar o hall de seu apartamento. O vento por entre as frestas das garagens próximas, uivava. Parecia um filme de terror e a chuva parecia uma cachoeira com águas em fúria. Sem pensar muito e rapidamente colocou a mão na bolsa em busca de suas das chaves.Sem elas, não poderia entrar em casa. Eram duas horas da madrugada.
Trêmula e muito nervosa entrou no hall e chamou o elevador. Se olhou no espelho. Se espantou e também se admirou. Seu cabelo molhado lhe proporcionou um novo visual. Até gostou. No quinto andar onde morava tudo estava tranquilo e sequinho. Houve tempo para refletir e para nunca mais esquecer aquela madrugada.
O ciclone chegou e com ele uma noite inteira de apagões na luz e trovoadas. Depois tomou um café bem quente, se secou e até aplaudiu aquele tempo sinistro. Como se a chuva do ciclone tivesse feito uma limpeza energética em seu corpo. Já quase desprovido da energia vital em sua espiritualizada aura.
(Ana D´Avila)





