A despedida foi difícil.
Apesar de estarmos realizando um sonho antigo, não estávamos fugindo de nada. Amávamos o nosso cantinho, a nossa rotina com a família por perto. Mas o desejo de cair na estrada falava mais alto e, naquele 13 de agosto de 2022, foi exatamente isso que fizemos.
A saída do sítio, a passagem pela Arena do Grêmio, a travessia da ponte do Guaíba com Porto Alegre ao fundo… Tudo parecia cena de filme. Era real. O coração batia acelerado e, ao mesmo tempo, em paz. Estávamos indo em direção ao desconhecido e isso nos dava vida.
Nosso plano era sair do Brasil pelo Chuí, rumo ao Uruguai. A primeira noite na estrada foi em uma parada de ônibus com restaurante.
Perguntamos se podíamos passar a noite ali, e eles nos receberam super bem. Dormimos ali mesmo, com uma mistura de euforia e gratidão. O Wilson, com seus quase 11 metros, estava se comportando bem, embora a gente ainda estivesse tentando entender se era mesmo possível estacionar “em qualquer lugar”.
No domingo seguinte seria o Dia dos Pais. A ideia era comemorar já em solo uruguaio, mas não conseguimos. Almoçamos em um restaurante em Rio Grande, e foi quando nos demos conta: ainda não tínhamos trocado nenhum dinheiro. Conseguimos sacar reais em um posto e fizemos o câmbio na fronteira mesmo.
A travessia foi tranquila, surpreendentemente tranquila. Imaginávamos aquela inspeção minuciosa, com revista no veículo, perguntas… Mas não.
Levamos uns cinco minutos e fomos liberados. No momento exato em que cruzamos a fronteira, começou uma chuva forte. Fizemos a imigração sob os pingos e, assim que saímos… Um arco-íris! Um sinal. Uma bênção para nossa jornada começar com o pé direito.
Seguimos para La Coronilla, Departamento de Rocha, ainda antes do Parque Nacional de Santa Teresa. Paramos no final da rua principal para ativar os planos dos nossos chips de celular (e quase gastamos todos os dados do Douglas logo de cara, por não saber que era preciso ativar o pacote de internet 😅).
Logo depois saímos em direção ao camping do Forte de Santa Teresa. O sol já estava se pondo quando pegamos a estrada e, quando chegamos ao parque, já havia anoitecido. Foi difícil encontrar um lugar bom para estacionar no escuro, mas conseguimos. Estávamos oficialmente fora do Brasil.
E tudo estava apenas começando.
Nos cinco dias que passamos no camping do Forte, começamos a nos adaptar a essa nova vida. Sentíamos como se ainda estivéssemos em uma casa fixa, com a diferença de que nosso quintal agora era o mundo. Tivemos dias lindos por ali. Um pôr do sol de arrepiar. Visitamos o forte em um dia congelante, andamos de bicicleta pelo parque, a Manu se encantou com os bichinhos do zoológico.
Usamos nossa lareira para espantar o frio, cozinhamos nossas primeiras refeições na estrada, descobrimos onde estavam guardadas as coisas (e onde elas realmente deveriam estar 😅). Aos poucos, fomos entendendo o ritmo. O tempo desacelerou. A ficha começou a cair: estávamos mesmo vivendo aquilo que por tanto tempo sonhamos.
A estrada era nossa nova casa. E a casa, o nosso maior projeto de vida.
Apesar de o plano sempre ter incluído nossos cães, o Byron e o Obama não estavam com a gente nesse início. Por orientação da veterinária, optamos por deixá-los temporariamente aos cuidados da família, já que, por serem mais velhinhos, havia o receio de que não se adaptassem bem à nova rotina em movimento.
Foi uma decisão difícil, porque eles sempre fizeram parte de tudo. Sentíamos falta deles a cada parada, a cada paisagem. Mas sabíamos que, se desse certo e percebêssemos que a vida na estrada era possível, encontraríamos uma forma de trazê-los com conforto e segurança. E foi exatamente isso que aconteceu.
No próximo capítulo, conto como foi atravessar o Uruguai, os aprendizados, as surpresas e tudo o que a estrada começou a nos ensinar logo nos primeiros quilômetros.














