Quando a Garota Verde começou a tocar em Viamão, em 2003, ninguém imaginava que a banda seguiria existindo mais de duas décadas depois. Menos ainda que novas músicas seriam criadas entre continentes, com um integrante em Paris, outro em Porto Alegre e uma parceria atravessando um oceano. Mas foi exatamente isso que aconteceu.
Em 2026, a banda retomou as gravações e encontrou uma forma pouco convencional de continuar criando.Marjorie Jonsson, vocalista e compositora, vive no Brasil. Ricardo Lilja, guitarrista e produtor, vive na França. Rodrigo Jacques, baterista que acompanha a trajetória da banda desde os primeiros anos, grava em Porto Alegre. Sem ensaios presenciais e sem dividir a mesma sala, os três transformaram a distância em parte do próprio processo criativo.
O resultado mais recente desse reencontro foram três faixas, a última delas chamada Um Viamão Antigo, lançada em junho. A música presta homenagem à cidade onde a banda nasceu e também ao site criado pelo pai de Ricardo, Paulo Lilja, dedicado a preservar a memória, a história e os artistas de Viamão. A faixa marca ainda a primeira letra assinada em conjunto por Marjorie e Ricardo, depois de mais de vinte anos de parceria musical.
Formada originalmente como Drops, uma banda de covers de The Cranberries, a Garota Verde adotou seu nome definitivo em 2004 e se tornou uma presença constante na cena musical da cidade. Em 2010, entrou para a história local ao se tornar a primeira banda viamonense a abrir um show internacional, dividindo o palco com os próprios Cranberries no Pepsi On Stage.
Nesta entrevista, Ricardo Lilja fala, sobre o novo lançamento, a homenagem a Viamão e o desafio de manter a Garota Verde viva mesmo quando seus integrantes estão separados por mais de nove mil quilômetros.
A Garota Verde nasceu em Viamão em 2003. Quando você olha para a trajetória da banda hoje, o que mais te surpreende?
O que mais me surpreende é que a gente tenha sobrevivido como banda por mais de 20 anos. A vida de uma banda pequena é complicada. Os retornos costumam ser modestos, os esforços são muitos e quase sempre existem mais motivos para parar do que para continuar. Acho que, nesse sentido, o que nos define é a teimosia. Hoje não temos a possibilidade de fazer shows, então a Garota Verde acabou se transformando em uma banda que existe principalmente através das gravações e das plataformas. Talvez por isso exista também uma certa liberdade. Não estamos tentando seguir tendências nem atender expectativas externas. Decidimos gravar apenas aquilo que realmente nos interessa e faz sentido para nós.
Depois de tantos anos, por que este foi o momento certo para voltar a lançar músicas inéditas?
A ideia era voltar antes. Cerca de um ano antes da pandemia, estávamos ensaiando em silêncio, com outra formação. Eu e a Marjorie chegamos a fazer alguns pocket shows acústicos para testar músicas novas e reencontrar pessoas que fizeram parte da nossa história. Mas a pandemia mudou os planos de todo mundo. O retorno acabou sendo interrompido e, antes mesmo que ela terminasse, eu me mudei para Paris. Com isso, tudo relacionado à banda entrou em pausa mais uma vez.
Como funciona uma banda em que os integrantes gravam separados entre Viamão, Porto Alegre e Paris? O que vocês ganharam e o que perderam com essa distância?
Ganhamos autonomia. Tudo ficou menos burocrático e mais direto. A Marjorie envia uma melodia, uma letra completa ou apenas uma ideia inicial, e trabalhamos até encontrar uma estrutura que faça sentido para a música. A partir daí, monto uma demo indicando a intenção da bateria, e o Rodrigo interpreta aquilo com a carga emocional que enxerga na música. Quando ele grava, eu reconstruo os arranjos em cima da bateria, regravando baixo, guitarras, violões, sintetizadores e o que mais a canção pedir. Só então a Marjorie grava a versão definitiva dos vocais, mas todos acompanhando cada etapa o tempo inteiro. Depois começa a etapa de mixagem e masterização, que também faço no meu homestudio em Paris, chamado o Cafofo do Mamute. O que perdemos foi a convivência e a espontaneidade de uma sala de ensaio. Mas ganhamos liberdade criativa. As três músicas que lançamos recentemente são bastante diferentes entre si e, talvez pela primeira vez, sentimos que podemos assumir esses riscos sem precisar nos encaixar em expectativas externas. Tem músicas de 15 anos atrás, que ninguém nunca ouviu ainda.
Existe alguma lembrança, lugar ou personagem de Viamão que tenha influenciado diretamente a composição da canção?
Quando ouvi o primeiro esboço da melodia e da letra que a Marjorie trouxe, pensei imediatamente em Viamão, ela também. Vieram à mente lembranças da Estalagem, da Santa Isabel e de diferentes momentos da infância e juventude na cidade. Ao mesmo tempo, a música me fez lembrar do trabalho do meu pai, que, assim como eu, também escreveu para o Diário de Viamão. Durante muitos anos, ele manteve o site Viamão Antigo, onde pesquisava e compartilhava histórias, imagens e curiosidades sobre a cidade, em uma época em que esse tipo de resgate histórico ainda era pouco comum na internet. Foi dessa associação entre memórias pessoais e o trabalho dele de preservação da história local que surgiu o nome da música.
Essa é a primeira vez que você e a Marjorie assinam uma letra juntos. O que aconteceu de diferente para que isso surgisse justamente agora?
Eu já havia participado de outras letras, mas mais como um orientador do que propriamente como compositor. As palavras eram da Marjorie, mas às vezes eu sugeria temas, conexões ou caminhos para a narrativa. Depois que estudei mais profundamente escrita para lançar meu livro em 2018, passei a me sentir mais confortável para escrever letras e acabei pegando gosto pela coisa. Hoje tenho dezenas de músicas compostas, embora muitas delas não se encaixem tanto no universo que a Marjorie gosta de cantar. Por isso, Um Viamão Antigo acabou sendo um encontro interessante entre os duas visões. Foi a primeira vez que realmente construímos uma letra juntos.
Em 2010, a Garota Verde se tornou a primeira banda de Viamão a abrir um show internacional ao dividir o palco com o The Cranberries. O que aquele momento representa para vocês hoje?
Foi um momento muito atípico para uma banda do nosso tamanho. Abrir o show de uma banda que o público realmente foi ver pode ser uma situação bastante hostil. Muitas vezes as pessoas sentem que você está apenas atrasando o espetáculo principal. O que foi especial naquele dia é que ainda existem vídeos mostrando como fomos conquistando a plateia música após música. Conseguimos transformar uma situação que poderia ter sido complicada em algo muito positivo. Também tivemos a oportunidade de receber um elogio da própria Dolores O'Riordan após o show, algo que guardamos com muito carinho. É uma lembrança que todos que participaram carregam na memória.
Muitas bandas acabam ficando presas à nostalgia. Como vocês equilibram o respeito pela própria história com a vontade de criar coisas novas?
Não somos reféns do algoritmo. Temos poucos seguidores e, curiosamente, muitas das pessoas que mais ouvem nossas músicas nem conhecem a história da banda. Neste ano tivemos nossa música mais ouvida. Reinventar ultrapassou 250 mil reproduções no TikTok. Foi uma gravação simples, sem grandes investimentos, e justamente a música na qual eu menos apostava entre os lançamentos recentes, mas ela tem uma mensagem positiva e clara, e acho que foi isso que funcionou. Esses números nem sempre se convertem em seguidores, então tentamos não criar expectativas em torno disso. Quando você grava apenas o que tem vontade de fazer, qualquer resultado positivo é bem-vindo. Hoje, se quisermos lançar uma balada e depois uma música pesada, vamos fazer isso. Porque podemos.
Como tem sido a reação das pessoas que acompanhavam a banda nos anos 2000 ao encontrar músicas novas da Garota Verde em 2026?
Não sei dizer exatamente. Quando anunciamos que voltaríamos a gravar, recebemos muitas mensagens carinhosas. Nossa segunda música, Medo do Quê?, também teve uma repercussão interessante fora do Brasil. Mas hoje a disputa pela atenção das pessoas é enorme. Conseguir um clique, um comentário ou um compartilhamento exige quase tanto esforço quanto divulgar uma notícia. Então aprendemos a valorizar cada demonstração de interesse que aparece pelo caminho.
O que ainda mantém a Garota Verde viva depois de mais de vinte anos?
Essa culpa é muito minha. Toda vez que tudo fica parado por muito tempo, eu pego o celular e começo a incomodar meus amigos de banda. Nós tínhamos planejado lançar três músicas ao longo de todo o ano, mas concluímos esse objetivo já em junho. Então agora precisamos de um novo desafio para a próxima fase. E, claro, já temos um plano.





