Acerta o deputado federal Paulo Pimenta ao reagir aos ataques de Luciano Hang, o já auto-assumido ‘Veio da Havan’, contra as universidades federais gaúchas. Como registrou em vídeo e publicação nas redes sociais, lembrou algo que deveria ser óbvio: universidades públicas não são um problema do Brasil. São parte da solução.
Pimenta citou a Universidade Federal do Rio Grande do Sul, a Universidade Federal de Santa Maria, a Universidade Federal de Pelotas, a Universidade Federal do Rio Grande, a Universidade Federal do Pampa, a Universidade Federal da Fronteira Sul e os Institutos Federais como instituições que formam profissionais, produzem ciência, fortalecem a economia e ajudam a construir o futuro do país.
Está correto. E aqui me socorro de dois artigos que ajudam a compreender por que essa discussão é muito maior do que uma polêmica regional.
O primeiro é do jornalista Moisés Mendes. Em texto publicado no Extra Classe, ele desmonta a narrativa segundo a qual as universidades federais seriam responsáveis pelo atraso gaúcho. Lembra que a UFSM nasceu muito antes da ditadura militar e recupera a figura histórica de José Mariano da Rocha Filho, o lendário “Doutor Marianinho”, um dos principais responsáveis pela consolidação do ensino superior em Santa Maria.
Moisés faz uma pergunta implícita que merece ser repetida: como alguém pode falar do atraso do Rio Grande do Sul ignorando instituições que formaram médicos, engenheiros, professores, pesquisadores e empreendedores durante décadas?
O segundo texto é do jornalista e ambientalista Henrique Cortez, publicado pelo Instituto Humanitas Unisinos. Seu argumento amplia a lente. Para ele, os ataques às universidades não são fenômeno isolado do Brasil. Fazem parte de uma estratégia global da extrema-direita para deslegitimar a produção acadêmica independente, enfraquecer o pensamento crítico e transformar instituições de ensino em alvos políticos.
Hungria. Estados Unidos. Polônia. Brasil. Mudam os países. Repete-se o método.
Primeiro questiona-se a universidade. Depois questiona-se a ciência. Mais tarde questionam-se os fatos. E, quando os fatos deixam de importar, sobra apenas a narrativa.
Talvez seja aqui que a analogia com Sob o Sol de Satã faça sentido.
No filme de Maurice Pialat, inspirado na obra de Georges Bernanos, a grande batalha não acontece apenas entre personagens. O conflito central é entre luz e escuridão. Entre a esperança e o desespero. Entre a busca pela verdade e as forças que tentam obscurecê-la.
A mensagem final do filme é poderosa: o mal existe, é real, mas a graça também existe; a luta consiste em continuar resistindo quando tudo parece caminhar para a desesperança.
Transportada para o debate público, a metáfora é quase inevitável.
A ciência é imperfeita. Universidades são imperfeitas. Pesquisadores erram. Professores erram. Instituições erram. Mas a ciência possui uma virtude fundamental: ela corrige os próprios erros através da evidência.
O negacionismo faz o contrário. Começa pela conclusão e procura fatos que a sustentem.
A universidade pergunta. O fanatismo responde antes mesmo da pergunta existir. A universidade produz dúvida. O autoritarismo produz certezas.
O problema dos ataques às federais não é apenas acadêmico.
Quando alguém desqualifica universidades como centros de conhecimento, está atacando também os hospitais universitários, a pesquisa agrícola, a inovação tecnológica, os laboratórios que produzem vacinas, os centros que estudam enchentes, clima, saúde pública e desenvolvimento econômico.
Durante a pandemia, vimos isso de forma cristalina. Enquanto setores políticos atacavam pesquisadores, eram justamente universidades e institutos de pesquisa que produziam conhecimento essencial para salvar vidas.
Por isso o debate vai muito além de Luciano Hang. O empresário é apenas a face mais visível de uma corrente política que frequentemente enxerga o conhecimento independente como adversário.
E talvez porque conhecimento tenha um defeito insuportável para projetos autoritários: ele ensina pessoas a pensar por conta própria.
Ao fim, pode-se discordar de Paulo Pimenta em inúmeros temas. É da democracia. Mas, neste caso, acerta.
Acerta ao lembrar que milhares de brasileiros só chegaram à universidade porque ela era pública. Acerta ao defender instituições que ajudaram a construir o Rio Grande do Sul moderno. Acerta ao compreender que o debate não é sobre direita ou esquerda. É sobre civilização.
Porque, no fim das contas, nenhuma sociedade ficou mais rica, mais desenvolvida ou mais livre atacando professores, cientistas e universidades. O caminho sempre foi o oposto.
Sob o sol de Satã, o mal tenta convencer as pessoas de que a luz não existe.
As universidades, com todos os seus defeitos, continuam sendo uma das formas mais poderosas de mantê-la acesa.





