A aposentada de botinha chinesa

Se aqueles anos de dureza profissional sugavam suas forças intelectuais. A espera da aposentadoria exauria sua paciência. Assistia na televisão debates intermináveis sobre a nova previdência. Não entendia quase nada, mas queria se aposentar. Seu processo com o pedido de aposentadoria já se estendia por alguns meses no INSS.

Antes, esperou anos para juntar toda a papelada exigida. As empresas que durante a vida trabalhou não eram lá tão corretas.Umas nem existiam mais. Outras burlaram a lei, descontaram a contribuição e não repassaram ao INSS. Foi uma luta incessante. Mas enfim, após tantas madrugadas em filas atrás de senhas para as entrevistas, conseguiu se aposentar.  De tantas visitas efetuadas no  guichê do atendimento ficou até conhecida dos funcionários da estatal.

Enfim, ironicamente pensou na vida de aposentada que a aguardava. Parecia que aposentadoria rimava com exercícios na água.Espantaria o tédio e manteria seu corpo em forma. Em mentalizações continuava a pensar em preservar a saúde. Que aliás, ela tinha. Para nadar, inclusive. Dona Margarida cuidava da alimentação, não tinha vícios e dormia cedo.

Lépida e faceira, aguardou o dia do primeiro pagamento como aposentada. O cartão magnético retirado no Banco dia antes, era da cor branca. Assim como,seu saldo bancário anterior. Uma fila tranquila e especial, a aguardava. Sem empura-empurra, prioritária. Num "tec-tec", o dinheiro foi surgindo, animando a Dona Margarida. A esta altura com algumas dívidas, e alguns empréstimos de amigos, para quitar. A situação financeira dela,era muito ruim.

Após pagar suas dívidas, ela pensava num certo prazer que só os shoppings centers proporcionam.Ou algumas lojas especiais. Foi pela rua que avistou uma bela vitrine de calçados. Amou tudo o que viu. Mas a aposentadoria no fundo não era lá tão polpuda. A compra deveria ser curta e bem planejada. Decidiu comprar apenas uma botinha. Necessária para o inverno. Era forrada, com botões, um mimo.

Chegou em casa, com mais calma, leu a etiqueta: "Made in China". Conferiu o que ouvia no rádio e na televisão. "O mercado dos sapatos chineses invadiu o Rio Grande do Sul". Compensa lá, descompensa aqui,Dona Margarida queria é ficar com os pés quentes.Pois de economia e mercao internacional, não entendia bem. E o ventinho do inverno era polar.

Agora, mais alegre do que nunca. Está usufruindo de mais tempo livre, para viver com mais contemplação. Faz meditação, formou um grupo de amigas que praticam "ecologia" e estabeleceu-se na serra. Em dias gélidos, pelo centro da cidade, é vista com suas insuperáveis e úteis, botinhas chinesas.Ama árvores e quer preservar o verde para as futuras gerações.

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