A cor da manhã

A paz daquela manhã de ventania fazia animais e plantas aquietarem-se. Tudo era silêncio. Parecia o começo ou o fim de algo que viria. Que se fazia presente naquela quarta-feira de maio. Na cozinha, um café bem doce, a esperava. Contrariando o cardiologista, que insistia em criticar o açúcar. Bobo! Não sabe que o melhor da vida é o doce.

O pinheiro estava lá. Dentro daquela paisagem multi-urbana-rural. Ele foi atingido outrora, por uma outra ventania, que mutilou alguns de seus galhos. Mas o pinheiro se recuperou. Como tudo na natureza se recupera. Outros galhos nasceram.  E ele, imponente, um pouco inclinado, não esmoreceu com o temporal. Que de quebra emborcou até o barco turístico Cisne Branco, no Cais de Porto Alegre.

Ao lado do pinheiro, o bailado de pássaros estranhos e uma luminosidade que impressionava. As manhãs de outono são assim: claras e surpreendentes.  Carros na garagem do prédio, aceleravam motores. Pessoas precisam trabalhar. Muitos acordam muito cedo. Faça chuva ou faça sol.

Sem trabalho não existe sustento. E as mãos com o tempo, ficam calejadas. Exceto as mãos dos intelectuais. A leveza do folhear livros não endurece a pele. Talvez a alma. Se ele ou ela, for editor de assuntos policiais. Enfim, sol. Abundante sol.

Em cafés, rabisco guardanapos. Em casa, rabisco folhas de ofício. Para o jornal, hoje digital, nem rabisco. É só asterisco e arrobas ponto com. Estranha vida moderna. Estranho escrever na era cibernética.  De contatos,  de robôs,  de celulares, de computadores móveis e aplicativos.  De solidão. Ah... a solidão e o tédio! Matam. É necessário agito. É necessário locomover-se. Surpreender-se com um novo dia. E se reinventar sempre !

Estou aqui. Como diz , uma amiga virtual: ”Viva”! E de longe, da janela, avisto uma mulher idosa. Tem idade e fuma. Na sua ânsia de esconder problemas vai enfumaçando sua boca e sua sacada. É cedo ainda, apesar do sol já ter aparecido. A mulher nem sabe que eu de longe, a observo. Está angustiada. Como todo habitante da cidade grande. Agora, entre cortinas, ela desaparece. Apaga o cigarro e some.  Para onde? Não faço a menor ideia.

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