A Dilma gorda, o Lula sem dedo e o parente voyeur do capital especulativo

Tenho parentes classe média e classe média alta. Também tenho uns ricos, mas aqui não vêm ao caso. Nenhum desses parentes esteve numa manifestação contra a ditadura, nenhum esteve na campanha pelas Diretas Já. Mas vários deles foram às ruas protestar contra a Dilma. Os que não foram, apoiaram de casa – acham mais chique delegar a exposição de suas indignações. Ir a manifestações, no fundo, tem algo de gentinha, não?

Esses meus parentes todos se sentem espoliados e acusam Dilma e Lula de serem ladrões. Apresentar provas que corroborem seus sentimentos e suas acusações é pedir demais. Eles se dão por satisfeitos com o Jornal Nacional – ali está a verdade, como está na Bíblia. Um dos problemas dos indignados é que não querem perder tempo com detalhes.

Esses meus parentes votaram no Collor e no FHC. Se desiludiram com Collor na hora em que ele meteu a mão na poupança e hoje não se lembram desse voto. Como também não se lembram dos votos comprados por FHC pra se reeleger, nem se lembram do fenômeno chamado privataria, quando o príncipe dos sociólogos arrecadou R$ 85,2 bilhões com a venda de estatais e, segundo o jornalista Aloysio Biondi, no livro Brasil privatizado, pagou R$ 87,6 bilhões pra vendê-las. Como, pagou pra vender? Sim, pra tornar as estatais atraentes teve de gastar uns trocados em melhorias.

Mas a parte que mais me admira é a raiva venenosa dos meus parentes contra Dilma, por ser gorda e dentuça, e por Lula, por ter um dedo a menos. O fato de alguns desses parentes não serem nenhum modelo apolíneo de beleza não faz diferença. E o fato de Lula ter um dedo a menos é encarado como uma marca de Caim, um traço de mau caráter anotado por Cesare Lombroso. Lula ter perdido um dedo num acidente de trabalho é visto como uma indignidade maior do que dar uma porrada na namorada, como fez Aécio Neves, naquela célebre festa no Rio de Janeiro.

Segundo esses meus parentes, o Brasil é uma merda. De quem é a culpa? Dos brasileiros, ora. Me parecem muita gente os brasileiros. Eu, por exemplo, não tenho ações de grandes corporações nem vivo do capital especulativo, para quem o Brasil não é uma merda, mas um paraíso. Portanto a minha culpa pelo Brasil ser uma merda vai até onde não luto pra que ele escape das garras das grandes corporações e do capital especulativo. Também não sou culpado de admirar o pessoal das corporações e do capital especulativo e me recuso a ir pra rua em defesa da agenda dele.

PS: A expressão “voyeur do capital especulativo” não é minha, mas de Armando Rodrigues Coelho Neto, advogado e jornalista, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-representante da Interpol em São Paulo. Me parece a melhor definição de alguns dos meus parentes.

 

Ernani Ssó é escritor e vive em Porto Alegre. 

 

 

 

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