A ‘Guerra do Terror’ talvez esteja prestes a se abater sobre a Europa

“Do ponto de vista imperial, as perspectivas no campo de batalha ucraniano são sinistras”. Recomendamos o artigo do jornalista Pepe Escobar, publicado no Asia Times e traduzido por Patrícia Zimbres para o 247


Nunca subestime um império ferido e apodrecido colapsando em tempo real.

Os funcionários imperiais, mesmo na qualidade de “diplomatas”, continuam a declarar, com a mais perfeita desfaçatez, que seu controle excepcionalista sobre o mundo é obrigatório. 

Se não for assim, podem surgir concorrentes que roubem os holofotes – monopolizado pelas oligarquias dos Estados Unidos.  Essa ideia, é claro, é anátema absoluto.   

O modus operandi imperial contra concorrentes na arena geopolítica e geoeconômica continua o mesmo: avalanche de sanções, embargos, bloqueios econômicos, medidas protecionistas, cultura de cancelamento, aumento da presença militar e ameaças de vários outros tipos. Mas, acima de tudo, retórica belicista – no presente momento elevada a um surto febril.

O Hegêmona pode se dar ao luxo de ser  “transparente” pelo menos nessa área, uma vez que ainda controla  uma maciça rede internacional de instituições, organismos financeiros, políticos, CEOs, agências de propaganda e a indústria da cultura pop.  Daí essa suposta invulnerabilidade gerando insolência. 


Pânico no “jardim”


A  explosão do Nord Stream (NS) e do Nord Stream 2 (NS2) – todos sabem quem foi o responsável, mas o suspeito não pode ser nomeado – intensificou o duplo projeto imperial de  impedir que a energia barata russa chegue à Europa e de destruir a economia alemã.

Da perspectiva imperial, o subenredo ideal  seria o surgimento de um ‘intermarium’ controlado pelos Estados Unidos, indo do Báltico e do Adriático até o Mar Negro – liderado pela Polônia e exercendo algum tipo de nova hegemonia na Europa, na esteira da   Iniciativa dos Três Mares.

Mas, no pé em que as coisas andam, tudo não passa de um sonho molhado.  

Sobre a suspeitíssima investigação quanto ao que realmente ocorreu no  NS e no NS2, a Suécia foi escalada para o papel de A Faxineira, como se fosse uma continuação do suspense de crime Pulp Fiction, de Quentin Tarantino.

É por essa razão que os resultados da “investigação” não podem ser comunicados à Rússia. A função da Faxineira era apagar qualquer indício incriminador.

Quanto aos alemães, eles aceitaram de boa-vontade o papel de otários. Berlim afirmou que se  tratou de sabotagem, sem ousar dizer de quem.   

Mais sinistro impossível, porque a Suécia, Dinamarca e Alemanha, bem como a União Europeia inteira, sabem que se eles realmente confrontarem o Império, em público, o Império revidará, fabricando uma guerra em território europeu. Aqui, trata-se de medo – e não medo da Rússia.

O Império simplesmente não pode se permitir perder o “jardim”.  E as elites do “jardim” com um QI acima da temperatura ambiente sabem que estão lidando com uma entidade  assassina em série e psicopata, simplesmente impossível de apaziguar.  

Enquanto isso, o  General Inverno, na Europa, pressagia uma queda socioeconômica a uma escuridão caótica – inimaginável há apenas poucos meses no suposto “jardim” da humanidade, tão distante das badernas  da “selva”.   

Bem, de agora em diante, a barbárie começa em casa. E os europeus deveriam agradecer a seu “aliado” americano por sua habilidosa manipulação das elites assustadas e vassalas  da União Europeia.

Muito mais perigoso, entretanto, é um espectro que poucos conseguem identificar: a iminente ‘sirianização’ da Europa. Que será consequência direta da derrocada da OTAN na Ucrânia.   

Do ponto de vista imperial, as perspectivas no campo de batalha ucraniano são sinistras. A Operação Militar Especial (OME) da Rússia  se transmutou suavemente em uma Operação Contra o Terror (OCT): Moscou agora caracteriza abertamente Kiev como um regime terrorista.  

O mostrador do nível de dor vem subindo pouco a pouco, com ataques cirúrgicos contra as redes de infraestrutura de energia elétrica ucranianas prestes a paralisar totalmente a economia de Kiev, e também suas forças armadas. E, até dezembro, haverá a chegada, tanto na linha de frente quanto na retaguarda, de um contingente da mobilização parcial devidamente treinado e altamente motivado.

A única questão  é o cronograma. Moscou  agora está, de forma lenta mas segura, decapitando o procurador de Kiev para, em seguida,  esmagar a “unidade” da OTAN.

O processo de tortura da economia da União Europeia é implacável. E o mundo real fora do coletivo ocidental  – o Sul Global – está com a Rússia, da África e América Latina até o Oeste Asiático e até mesmo partes da União Europeia.  

É Moscou – significativamente, não Pequim – que vem dilacerando a “ordem internacional baseada em regras” cunhada pelo Hegêmona, com base em seus recursos naturais, na oferta de alimentos e em segurança confiável.  

E, em coordenação com China, Irã e outros grandes atores eurasianos,  a Rússia vem atuando no sentido de, futuramente, desativar todas as organizações internacionais controladas pelos Estados Unidos, enquanto o Sul Global se torna virtualmente imune à disseminação das operações psicológicas da OTAN.

A ‘sirianizacão’ da Europa   

No campo de batalha ucraniano, a cruzada da OTAN contra a Rússia está fadada ao fracasso  – embora, em alguns nós, 80% das forças de combate sejam formadas por tropas da OTAN.  Wunderwaffen como os HIMARS são poucos e esparsos. E, a depender do resultado das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, o fornecimento de armamentos irá secar em  2023. 

A Ucrânia, na primavera de 2023, talvez esteja reduzida a nada mais que um buraco negro atrasado e empobrecido. O Plano A do Império continua sendo a ‘afeganistanização’: operar um exército de mercenários capaz de desestabilização programada e/ou incursões terroristas na Federação Russa.  

Paralelamente, a Europa está salpicada de bases militares americanas.  

Todas elas podem vir a desempenhar o papel de grandes bases terroristas – de forma muito semelhante ao que sucede na Síria, em  al-Tanf e no Eufrates Oriental.  Os Estados Unidos perderam a longa guerra por procuração na Síria  – onde instrumentalizaram jihadis – mas ainda não foram expulsos de lá.   

Nesse processo de sirianização da Europa, as bases militares americanas talvez venham a se converter em centros ideais de arregimentação e/ou treinamento de esquadrões de emigrados do Leste Europeu, cuja única oportunidade de emprego, fora o tráfico de drogas e de órgãos, será  – o que mais seria? – a de tornarem-se mercenários do império, lutando contra qualquer foco de desobediência civil que venha a surgir em qualquer parte de uma União Europeia pauperizada.

É óbvio que esse Novo Exército Modelo será plenamente ratificado pela eurocracia de Bruxelas – que é nada mais que o braço de relações públicas da OTAN.

Uma União Europeia desindustrializada, enredada em várias camadas tóxicas de guerras internas, onde a OTAN desempenha seu tradicional papel de Robocop, é o perfeito cenário Mad Max, justaposto ao que seria,  pelo menos nos devaneios dos  neo-cons/straussianos americanos, uma ilha de prosperidade: a economia dos Estados Unidos, o destino ideal do Capital Global, inclusive do Capital Europeu.  

O Império “perderá” seu projeto de estimação, a Ucrânia. Mas jamais aceitará perder o “jardim” europeu.

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