Alice Chala | A palavra que me trouxe até aqui

Comecei a escrever muito cedo, e continua cedo. Comecei a escrever quando percebi que algo me transbordava, e comecei a desenhar quando percebi que a vida pode ser mais do que se parece. Eu aprendi a transformar os sentimentos que não entendia, e os que entendia, eu aprendi a acolher ainda mais.

Quando nada me alcançava, eu alcançava a caneta e o lápis, e depois disso não existiam mais impedimentos que pudessem me parar: eu me tornava invencível, uma heroína, uma rainha, uma deusa ou mesmo uma flor, um galho, um animal.

Aprendi que as palavras são como um refúgio secreto para cada um, uma casa em um bosque, uma barraca no topo da montanha. Depois que eu me joguei nesse rio fluído da escrita, não quis mais sair. As águas profundas desse universo me conquistaram, e as conquistei. E hoje, compartilhamos esse pertencimento mútuo.

A escrita me trouxe uma compreensão diferente da vida e de todas as coisas, as pessoas se tornaram por vezes mais interessantes, ou desinteressantes. A escrita me trouxe esse contato sincero com a experiência da vida, de modo que é possível escrever de passado e de futuro, sem sair do mesmo parágrafo. As possibilidades são mágicas, tudo transpassa a palavra. É um tiro, um rasgo, é mesmo uma cirurgia nos nossos corações. Tudo muda depois de um texto, uma vírgula mal colocada e dois personagens já não estão mais juntos. Quem poderia imaginar?

O fim do ano chegou, e com ele um desejo quase inconsciente de mergulhar em nossas piores decisões, os arrependimentos e as alegrias que vivenciamos aqui e ali. É belo, é dramático, mas como poderíamos comunicar todos esses aspectos sem a palavra que nos impulsiona, fere e cura?

Neste ano, vivi coisas que tatuei na pele, memorizei afetos e sensações que jamais voltarão. E nunca sei se me alegro, ou se choro. Ainda bem que tenho a palavra para eternizar todas as minhas contradições.

É somente através desse exercício que posso sentir que estou existindo, vivendo mais um ano, passando para outro ciclo. Entre todas as cores, posso sentir que me identifico com alguma, posso me desenhar nessas formas e então: a existência.

Não é complexo, é simples. Espero que possamos continuar vivendo coisas que mereçam ser tatuadas e eternizadas, contadas aos filhos e aos netos. Espero que possamos exercer a potência dessa palavra que nos atravessa, e que nos faz existir. Espero que no próximo ano possamos gritar os nossos anseios, falar sobre os nossos limites, e ao mesmo tempo, desafiar nossas limitações.

E que possamos dar voz a esse pássaro cantante que há dentro de cada um de nós, esse pedaço de criança que ainda insiste em nos habitar. Não há nada que eu queira desejar mais, do que os braços abertos no vento, as risadas despretensiosas que jogamos fora, esses amores que vamos demorar para esquecer. Não há nada que eu queira desejar mais, do que muitos finais de tarde e banhos de mar. E mais pés descalços, desenhos estranhos e confissões secretas no meu diário.

É o extrair a vida dessa vida que nos habita, da melhor maneira, da maneira que for possível para mim e para você. É viver o que está sendo oferecido e buscar mais do que nos faz feliz, é estar presente e deixar que o depois se ajeite.

É colocar palavra em todos os momentos, é fotografar o hoje e viver como se nunca mais….

E em tudo depositar a verdade, esse amor primitivo e todas as coisas importantes que esquecemos com o tempo. É o que eu desejo, e deposito minhas esperanças nessas palavras que não terminam aqui, mas continuam depois de cada coração que se sentir tocado. É aí que você entra, e nós existimos juntos(as)!

Com amor, Alice.

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