Priorizando o bem-estar, ela se dispôs a tirar férias. O fim do ano se aproximava. Como todos, em seu local de trabalho, desejou dias melhores. Pensava nas simpatias que teriam poder e poderiam ser feitas na noite do dia 31, transmutando energias. Tudo que foi ruim seria transformado em acontecimentos bons, Tais como, boa saúde, bom saldo bancário e boas realizações profissionais, além de um grande aprimoramento espiritual.
As férias aconteceriam fora do Brasil. Mais precisamente no sul da França, onde morava sua prima-irmã. A prima tinha saído do Brasil em 1985, movida por sentimento de rebeldia. Tudo para ela era nebuloso em seu País. Queria morar num lugar mais civilizado, encontrar um amor, trabalhar e ser feliz.
De malas prontas e passaporte atualizado, rumou para as terras de Napoleão, mas seus primeiros dias por lá não foram nada fáceis. A cultura era outra. Quase não existiam sorrisos fartos nem brincadeiras do humor brasileiro. Tudo era sério. Tudo tinha caráter sisudo. Quase incompreensível para uma latina.
Desde a arquitetura até o mofo das casas francesas. Inclusive a dificuldade de entender a arte e a literatura secular que eles mantinham. Começando pela poesia de Charles Baudelaire e seu poema: “L´âme du vin” (A alma do vinho). Tentou ler: “Un soir l’âme du vin chantait dans les bouteilles”(A alma do vinho assim cantava nas garrafas).
Elizabeth, a viajante, tinha cursado psicologia numa universidade brasileira, o que lhe atribuía um certo conhecimento das ciências humanas. Mas até seu diploma invalidava seu entendimento naquelas pessoas de mentes desenvolvidas. Depois de 2020 com a pandemia da covid-19 todos os povos, com ou sem cultura, pareciam iguais. E ela questionava o valor das civilizações, seus gênios, suas verdades. Os tempos antigos, os atuais, a condição humana e a política vigente em seus países.
Depois de um mês na França, resolveu voltar para o Brasil. Formou um grupo de estudos desenvolvendo assuntos inerentes à sua área de atuação profissional. O réveillon se aproximava, e teria a certeza de que veria muitos sorrisos por aqui. De brasileiros, alegres ao natural, sem nenhuma ou quase nenhuma tinta de alta cultura. Como diria um compositor do Rio de Janeiro: “O importante é ser feliz”. Ela, definitivamente, sentia suas raízes. Sorriu e comemorou. O ano estava começando.





