A saúde de uma pessoa é assunto particular. Contudo, quando se trata de figura detentora de cargo ou posição relevante, fica difícil separar a vida pessoal da pública. Foi assim com Bolsonaro, que lutou até judicialmente para não divulgar seus exames para o coronavírus (usando até nome falso nos exames) e depois virou garoto propaganda da cloroquina (usando nome verdadeiro). Saber da capacidade física e mental do mandatário do país não tem a ver com capricho ou dar satisfação aos eleitores, é questão de manter intocado o rito democrático e a governabilidade.
Guardadas proporções (nada a ver com a predileção por medicamentos não comprovados cientificamente), a confirmação nesta terça-feira (15) de que o prefeito Russinho testou positivo para a COVID-19 coloca Viamão na mesma encruzilhada moral. Valdir Jorge Elias é vice, ocupa a cadeira interinamente ao menos até o mês que vem. E sua saúde é a garantia da continuidade de uma gestão.
Ter conhecimento da real condição clínica do prefeito em exercício foi a busca incessante do dia de ontem. Desde o comunicado oficial do contágio, feito pela Prefeitura no fim da manhã, informações desencontradas circularam. A nota oficial silenciou sobre a hospitalização de Russinho, fato que o Diário de Viamão revelou no início da tarde.
Somente às 21h veio a confirmação da ida ao Hospital Viamão, porém a nota minúscula atribui a permanência na casa de Saúde à uma escolha do prefeito, para "observação". O hospital reserva-se ao sigilo médico para não dar informações sobre Russinho. Já o secretário Glazileu Aragonês falou à coluna dando conta de que o quadro clínico do chefe do Executivo, que tem 66 anos, "inspira cuidados".
Saber como está Russinho não tem apenas importância do ponto de vista de zelar pelo seu bem-estar. Por isso, os bastidores da política local ferveram nesta terça-feira. Teve reunião na Câmara de Vereadores, debate interno em partidos, todos avaliando cenários. Todos fazendo contas.
Russinho é o vice da chapa de André Pacheco (afastado), portanto não tem vice. E caso a recuperação da COVID-19 exija seu afastamento, é o presidente da Câmara, vereador Dilamar de Jesus (PSB), o político a sentar na cadeira de prefeito. Se isso acontecer, por um dia que seja, ele não poderá concorrer à reeleição.
Não é uma escolha simples, nem desejada, acredito, por Dilamar. E o cenário indicava já durante a tarde que o presidente do Legislativo poderá recorrer a uma licença interesse caso necessário para não assumir o Executivo.
O mesmo ocorreria com os sucessores abaixo de Dilamar. É ano eleitoral, ninguém quer abrir mão de concorrer. Já vi este filme em Alvorada certa vez, embora por outros motivos. E lá, quem foi colocado no comando da Prefeitura foi a juíza responsável pela Comarca na época.
A coluna pediu. Ninguém quis falar sobre.
É um cenário extremo, talvez com remotas chances de ocorrer em Viamão, mas dada a importância do cargo, precisa ser encarado como hipótese. Não há dúvidas que todos torcem pela recuperação rápida e plena de Russinho, e é líquido e certo de que sua cadeira está "amaldiçoada" eleitoralmente. Tem uma fila, grande até, de gente a querendo, mas só em 2021.
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