A voz do vento

Aquele uivo em sequência, assustava. Não era um vento qualquer. Era um senhor vento. Ora uivava como lobo. Ora assoviava como pássaro silvestre. Carregava papéis, sombrinhas e tudo que se colocasse à sua frente. Ou ao seu redor. Às vezes corria em disparada. Fazia a fina areia da praia penetrar até nos poros dos visitantes.

A praia ainda estava deserta. Era dezembro. E a primavera se despedia. Olhando a ruazinha praiana sentia-se a força da Natureza. Tão crua. Tão sul do Brasil. À noite, nas persianas da janela, o vento cantava. E amedrontava. Sua intensidade vinha do mar. Parecia ouvir-se vozes atreladas a este barulho ensurdecedor.

 As ondas do mar iam e vinham. O vento circulava por entre frestas de janelas e portas de garagens. Formava uma estranha melodia. Como quê uma ópera  de Verdi. Como pode alguém não ter medo de uma força invisível? Descontrolada e potente. Só conhecendo o litoral gaúcho para compreender esta realidade.

Enquanto pela manhã do novo dia, entre a ruazinha e o mar, um casal se dispôs a passear. Indiferente ao teor do vento. O relógio marcava nove e meia. Excelente horário para uma caminhada. Mas o vento nublava seus olhos, enchia suas orelhas de areia. E fazia o guarda-sol de quem queria tomar sol, voar. Como asa-delta. Mesmo assim, enfrentavam o sol daquele dia tão azul,mas tão ventoso.

Na mesa do Quiosque, um poeta de praia, refletia. Pediu um guardanapo ao garçon e rabiscou. O papelzinho também queria voar. Envolveu-se naquele clima. Chegando à conclusão de que o vento tem voz. Como uma grande boca, que sussura o que quer dizer. Independente e livre. Como um tenor que exercita suas cordas vocais.

O casal, ao sol, em contra-partida, depois da terceira recuperação de seu guarda-sol que voava com a ventania, recolheu-se. E o poeta, ficou lá. Bebendo o rum do pirata e a marisqueira de Torres e, escrevendo. Entendendo um pouco, com sua sensibilidade, o poder do vento das praias do Rio Grande do Sul. Tão inóspitas. Tão instigantes. Tão barulhentas e únicas. Reconhecendo estas características, o poeta bronzeado e louco, criou versos. Que, mais tarde se transformaram em música. Testemunhando uma estranha e surpreendente sonoridade. Que só  o vento do litoral gaúcho tem.

 

 

 

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