Por ti, li todos os livros que sabia que eram teus favoritos, e os trechos grifados pela tua mão, eu sei de cor. Por ti, aprendi outro idioma, e até disse que visitaria contigo aquele país submerso em neve, eu que nem gosto de frio. Por ti, incorporei inúmeros papéis que não eram meus, decorando as falas de última hora, fui a melhor atriz, e até dancei, sem saber a coreografia.
Por razões que me pareciam as melhores, incentivei os meus próprios abismos, tropeços, cravei todas as facas, finquei todos os espinhos. Por ti, os esforços foram duplicados, triplicados, e as ruínas me pareciam um conceito indecifrável de estética, que eu insistia em chamar de beleza.
Disse que sim, quando queria dizer que não. E disse que não, quando queria dizer que sim. No sol, comecei sozinha a lapidação de um diamante que me era muito próprio, mas que atribuía a ti, com a obstinação de um atleta.
Um dia, percebi tu entrares na minha casa, sem pudor, sem elegância, aos berros. Percebi que não regava as plantas que eu cultivava no jardim, não trazia flores e nem pão doce para o café da tarde, não observava minhas sutilezas, meus quadros pendurados na parede com tanta perfeição. Não reparava.
Nos teus melhores dias, enchia o copo de água pela metade, e me alcançava com a altivez de um súdito, e naqueles gestos, eu descobri que tua escassez indignava profundamente o meu desejo de grandeza, pela vida, pelas coisas.
Minha casa, construída com minhas próprias mãos, planos e ideias. Os cômodos, tão cheios do que eu era, da minha história e do meu pranto. Em segredo, sonhava com a imensidão, mesa farta, coração cheio, um copo transbordante.
Certa vez, ao final de tarde, enquanto saboreava um chá, do alto da minha varanda, te vi se aproximar do meu campo de girassóis que cultivava com tanto carinho. Observei o jeito que olhava para eles, com tanta indiferença, sem amor. Ainda assim, insistia em vir na minha direção a passos largos, mesmo sem parar e contemplar os meus girassóis…
Naquele dia, não te recebi, preferi ler os livros que queria, comprei uma passagem para o Havaí, aceitei que não atuo e que não sei dançar. Fui até a cozinha, enchi um copo de água, até transbordar.



