Alice Chala | De baixo do mesmo céu

Aquele amor tinha cheiro de chá, com ervas finas e frescas, doces e amargas. Naquelas conversas, descobri que o mundo era um lugar agradável de se estar, e que pessoas boas existem. Dentro daqueles passeios, agradeci a Deus por estar viva e senti um absoluto desejo de revolução. De lutar, de não desistir.

Naquele amor, me percebi múltipla, indomável, sem necessidade de conter o inevitável. Era riso, era suavidade no toque e nas palavras que dizia e que me eram  ditas. 

E quase sempre, saíamos para tomar um café e eu não entendia a beleza daquele trato, como que em êxtase, procurava explicar a situação… Nada disso ou daquilo importava. 

Estávamos mesmo sempre a sós, um com o outro, com nossos sonhos, ambições, planos distantes que jamais chegariam a se concretizar. Ainda nesse plano, ainda nessa vida. Em nosso apartamento particular desenhávamos constelações e lá ficávamos por horas, quem poderia dizer? O destino é implacável. 

Ao sentar para observar a lua, o sol, as coisas amenizavam, e o que parecia terrível, de repente tornava-se mera perturbação casual. Do cotidiano. Tanto de cotidiano havia em nós e ainda assim, tanta mágia, tanto mistério.Nós acabamos por nunca deixar de tentar, tentar demais e sair assim: perdidos, arrasados e ainda tão exultantes. 

Aprendemos significados de palavras que jamais serão ditas, e aquele sinal que não voltou a ficar verde. Contudo, a melodia final tão bonita, que chegou para ficar. Não cessa. Ainda aqui, na chama de tudo o que há e que virá, um desejo de revolução permanece em nossos corações. Um brinde ás possibilidades dos encontros.

Para mostrar que não deixamos de sonhar, continuamos olhando para cima e aprendendo coisas novas. De baixo do mesmo céu, seguimos nossas vidas comuns todos os dias, de modo cotidiano, ainda muito casuais.

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