Em seu interior um bolor esquisito. Lembranças. Muitas lembranças de tempos idos. Bebidas
ingeridas, grelhas de churrasco e um armário de cozinha cheio de louças antigas. Um ou dois
copos de cristal e uma saudade inexplicável de natais, anos-novos e carnavais.
Janelas empoeiradas no quarto. E um armário que esconde um passado deixado de lado. Um
par de sapatos pretos no chão. E bolsas e roupas de festa espalhados num sofá-cama. Que
deve ter abrigado amigos e parentes num desses veraneios antigos quando o cinema era
mudo. Quando tudo cheirava a pó de arroz e perfumes franceses.
Nos fundos a garagem cheia de teias de aranha. E dentro um cheiro forte de passado. Ali
aconteceram festas de pessoas que já partiram para outra dimensão. Ali houve piscadelas de
olhos marotos em busca de namoradas. Ali se comeu,bebeu e amou. Agora é só uma
lembrança. Com muito mofo .Num calor insuportável de um moderno e poluído mundo de
aparências.
Um senhor abre a porta e ela range. A fechadura sofreu os danos da maresia. Que é intensa
nesta época de abril. Um cachorrinho defeca no pátio num alarido geral dos novos moradores.
Gente jovem de camisetas, tênis e bonezinhos. Todos buscam o mar. No passado e no
presente. Mas as ondas nem ligam mais para os visitantes. Ligam só para os jovens que
sonham.
Continuam indo e vindo num compasso matemático. A velha senhora ,outrora menina, ainda
guarda uma alegria em seus olhos clarividentes. É pura anergia. Seus filhos viajaram e curtiram
novos países. Ela está só. Triste.É a velhice que chega e deixa pessoas e ares melancólicos. A
vida está quase findando e ela confessa que viveu muito.
Seu neto porta uma prancha e segue para o mar em busca de surf. Ao invés de MPB escuta um
rock pauleira num cérebro tombado por um baseado. Que é consumido em grupos.
Andarilhos,sem rumo e amantes do mar.
O mesmo mar que enferruja a casa da praia. Já tão usada, tão perdidamente passado e onde
as cinzas vivem em meio ao mofo e a um ar destrutivo e pestilento. Uma lágrima desce de
olhos verdes. Eles miram o mar e a casa fica lá. Estupidamente saudade. (Ana D´Avila)





