O doido gritou no Instargram: vou te bloquear! Aquilo foi uma sentença. Uma usurpação. Uma negação da minha autoridade. Como assim? Alguém mandando em mim? Me julgando? Me intimando? Jamais ouvi semelhante frase. Ninguém nunca ousou me deletar. Mas eu, em minha fúria cibernética, ou esotérica, bloqueava todo mundo. Um dia sobrou para mim. Assim, do nada.
Bastava me sentir mal, sufocada por tantas mensagens tóxicas. A propósito, nunca fui desrespeitada. Nenhum gesto que me incomodasse. Mas eu, louca, ia lá e clique! Deletava todos amigos e redes sociais. No Orkut, quando beirava os 4.900 amigos, deletava. Parece que a multidão me apavora, que muita gente reunida me sufoca. Hoje esta minha constatação até está correta. Realmente, as multidões apavoram. Trazem doença.
Sou de uma época antiga. Não chego a dar tanta importância para a rede social. A não ser como objeto de diversão. Mas o pessoal jovem acredita que aquilo tem ouvidos, bocas e paladar. Mandam coraçõesinhos quando se apaixonam. Mandam comidas quanto é a hora do jantar. Eu só acho aquilo tudo engraçado.
Como falei, sou de outra época. Mas os loucos também são jovens. Eu sou uma louca velha. No momento, não estou em mais nenhuma rede social, embora o Instargram insista em ficar em mim. E o doido insista em me deletar porque não fala com gente que não tem foto no perfil. Às vezes acho que a foto não importa muito e a retiro. Depois recoloco. Mas ele, o insano, entende de outro modo. Modo avião, talvez.
O doido era artista plástico. Vivia sem mais esperanças de frequentar uma vernissage. A não ser que fosse virtual. Não acreditava mais no Brasil, nem nos governantes. Agora, com a pandemia, seus desenhos não mais o sustentavam como antigamente. Vivia de favores numa praia linda na Ilha de Santa Catarina, onde repousa a maoir parte territorial da capital catarinense, Florianópolis. Mas não conseguia sobreviver de sua arte, embora seus desenhos fossem arte-pop facilmente comercializadas em Nova Iorque ou em qualquer outro centro cultural do mundo. "No Brasil, são poucas as pessoas que entendem de arte”, frisava.
Profundamente chateado com sua vida, falou que, não fosse suas pinturas, não saberia mais de seu destino. Foi depois disso que entendi seu drama. Compreendi um pouco do “bloqueio” ao qual ele me submeteu. As pessoas, às vezes, colocam nos outros seus traumas escondidos em veias, corações e mentes. A temática central do doido era o insuportável vírus causador da COVID-19 e que assola o mundo. E faz do louco um verdadeiro criador de arte.
Eu sou e sempre serei uma apreciadora das artes plásticas. Mesmo que ela seja “naif” (palavra francesa que tem como significado algo que é "ingênuo ou inocente"). Mesmo que seja somente uns rabiscos, cores que enternecem, desenhos abstratos, ou coisas que nem parecem nada.
E tenho muita atração pela insanidade. Um dia o vírus desaparecerá. As telas do doido, entretanto, permanecerão perpetuadas em muitas paredes brasileiras. Tão coloridas, tão instigantes. Tão retratos de uma época.
Triste e bloqueada época!





