O verão chegará num calor insuportável. Pessoas caminhavam pela rua portando geladas garrafinhas de água mineral. Crianças riam como se fossem anjos tocando harpas. Mulheres e homens suavam incontrolavelmente em meio ao tórrido verão de janeiro. Na sala do apartamento uma janela com cortinas brancas. E na sala, estórias narradas por um homem sensível para uma curiosa mulher. Atenta à narração ela gesticulava pouco e ouvia muito.
Na mente deste homem uma confusão amazônica. Pessoalmente havia casado, se divorciado e encontrado muitos problemas pela vida afora. Ela, a ouvinte, era mística. Compreendia ele, mas distanciava-se daquela inquietude e repetição toda. As vezes era quase insuportável ouvir a mesma estória contadas muitas vezes. Entremeadas à verdade, sentia que a sua energia do bem ia aos poucos se diluindo.
Quatro horas da tarde e o sol ainda entrava pela porta da frente do apartamento. Entrava pela janela e aquecia fortemente a sala de verão. Ao fundo uma televisão ligada emanava um pouco de alegria. Eram musicas escancaradas. Uma comovia, a estória de uma mãe falando de um “homem simples”. Uma lágrima rolou com esta temática. Depois rocks, depois cabeças pensantes e desequilíbrios mentais. Onde andaria a lucidez?
Parecia que o calor do verão era o único responsável pelo desequilíbrio mental. Mas não era só isto. Tinha fatos inenarráveis. Fatos suspeitos. Fatos confusões. Que nem valeria a pena descrever. A ouvinte era passiva em meio ao caos estabelecido. Ela aprendeu desde cedo a equilibrar sua mente: rezava, conectava com a natureza e não raro apreciava muito quase todos fenômenos estabelecidos. Tipo sol ,nuvens , estrelas, lua e até um ciclone. Que naquela noite varria todo o bairro.
A cidade se transformara agora, só numa grande ventania. Que a fez sair da sala.Foi a rua.Presenciou o maior espetáculo climático que seus olhos poderiam ver. Uma chuva intensa que atravessava a calçada e desembocava na praia. O mar estava agitado. E o barulho ensurdecedor do vento quase a fazia flutuar no ar.
Seus cabelos encharcados de chuva a transformavam pouco a pouco numa figura exótica. Depois em casa, a frente do espelho, teve certeza disto. E em seu coração, a figura daquele homem lhe contando estórias de vida, a faziam feliz.
Não sabia porque razão, mas teve certeza que apesar da chatice dele, ele ainda era importante em sua vida. E em silêncio o amou. Desta vez com o carinho de sempre,agora, potencializado. Nunca gostou tanto de caminhar descalça na chuva de um ciclone. Que chegou atrevido . Que chegou rasgando o mar e que a fez amar até as estórias chatas narradas na sala de verão. (Ana D´Avila)



