O general Bento Gonçalves era considerado sem sorte. Nos dez anos em que a Revolução Farroupilha durou, até teve vitórias importantes como as batalhas de Seival, Rio Pardo e a tomada de Laguna (SC), mas via de regra, a História conta que o estanceiro que foi Presidente da República Rio-grandense passou a guerra inteira em maus lençóis. Foi preso no Fanfa, perdeu Porto Alegre muito cedo e viu-se obrigado a mudar a Capital de lugar diversas vezes, conforme perdia terreno.
A analogia da "guerra ao vírus" defendida pelo governador do Rio Grande do Sul e pelo prefeito de Viamão me autoriza, bem como os desfechos desta segunda-feira (22), a comparar Eduardo Leite e o colega tucano Valdir Bonatto a Farroupilhas que tiveram a vitória nas mãos, mas que por erros estratégicos foram encurralados pelos Imperiais. Ambos estavam bem armados, com as tropas a postos, mas hesitaram.
O governador estava na trincheira certa. Mostrou coragem ao decretar a bandeira preta e avisar para o Brasil que voltaria a encarar a COVID-19 com seriedade. Só que na hora de ordenar o ataque, recuou de forma inexplicável.
Ou nem tanto assim.
Alguém certamente lembrou dos jogos Inter e de Grêmio, na quinta (25) e no domingo (28). As entidades que representam o capital econômico berraram - e Bento, quer dizer... Leite bateu em retirada. Como se tivesse caído em algum conselho mal-intencionado do xará Bento Manoel, que mudou de lado na guerra várias vezes de acordo com interesses pessoais.
Se Leite é figuradamente Bento Gonçalves, Bonatto está mais para Afonso José de Almeida Corte Real, considerado um dos mais ativos combatentes entre os Farrapos. Por má sorte ou temor de algo maior, Gonçalves deixou de atacar um destacamento Imperial desguarnecido. A consequência indireta foi a morte de Corte Real, numa emboscada subsequente pelos mesmos homens.
Daí pra frente, Bento nunca mais se aproximou da vitória.
Por essas ironias da vida, Corte Real está sepultado na Catedral de Viamão. Novamente por ironia, o prefeito da Velha Capital se viu ontem sozinho, emboscado, tendo que mudar o discurso após o recuo de Eduardo Leite.
Na live de ontem, Bonatto caiu atirando. Empunhando a garrucha em uma mão e a espada na outra, mas caiu.
O Chefe do Poder Executivo local começou o dia certo de que estaria guarnecido pela retirada da cogestão do distanciamento controlado. Nos bastidores, projetava um decreto bem mais restritivo. Nas contas do tucano, era fechar o comércio e sustentar a retórica de que estava de mãos atadas diante das determinações do governo estadual.
A saída perfeita para frear a pandemia sem sofrer tanto desgaste.
Pois tal cenário começou a mudar no fim da tarde. Leite não retirou a cogestão e as entidades empresariais, de comércio e de serviços da Região Metropolitana caíram "matando" sobre os prefeitos.
Por aqui não foi diferente. No início da noite, Bonatto reuniu-se via online com entidades que representam a economia local e com os conselhos de Saúde e de Educação. Depois com membros do Comitê de Operações de Emergência em Saúde (COE). E a bandeira que era preta desbotou para o vermelho.
Ou seja, fica tudo como está, exceto pelo horário. Das 6h às 20h, abre tudo. Fora desses horários, apenas serviços essenciais. Durante esses horários lojas e ônibus continuarão cheios.
Na live, o mandatário de Viamão anunciou que a secretária da Educação Márcia Culau também positivou para a COVID-19. São dois casos confirmados envolvendo o primeiro escalão em um único dia. O outro é o vice-prefeito Nilton Magalhães.
Secretária apresenta sintomas leves da doença, segundo a Prefeitura, e está em isolamento.
Vale lembrar que o secretário de Planejamento da gestão Bonatto, Nilson Vargas, morreu em decorrência do coronavírus há menos de duas semanas. Vale ainda destacar que o presidente de Honra do MDB, Sarico Moura, está internado em estado grave com a doença. E para quem chegou na Terra agora, aviso que esta pandemia também tirou a vida do Prefeito Russinho (MDB) ainda no ano passado.
Na "batalha da live" pós emboscada, Bonatto afirmou que "com a cogestão é possível trabalhar com os protocolos de bandeira vermelha, mas com muitas ressalvas". Confirmou presença na reunião anunciada por Eduardo Leite para a próxima quinta-feira (25) e disse ainda que "o rápido aumento do número de casos está levando o sistema de saúde pública ao colapso".
Mesmo assim, mantém o comércio operando. E o vírus circulando livremente, por consequência.
A COVID-19 venceu mais uma.
Saindo da analogia da guerra aludida diversas vezes pelo governador e pelo prefeito, entendo que Eduardo Leite tirou a escada e deixou Valdir Bonatto "no pincel". Daí a mudança brusca de rumo e de retórica do gestor municipal e de seus assessores.
Entre o embate com o poder econômico ou com o povão, Bonatto optou pelo primeiro, pois avalia que o barulho das carteiras vazias seria bem maior do que o apelo popular por um pouco de sanidade.
Na política, quase tudo é efêmero, dura pouco. Pela manhã, Bonatto e Leite flertavam com o correto a fazer, à tarde viram-se embretados, e à noite o prefeito pegou o atalho que acredita ser o de menor desgaste.
Seja por má sorte, hesitação ou recuo estratégico, revisitamos o massacre de Porongos. E tal como os Lanceiros Negros, em mais uma repetição trágica de fatos, o povo foi preterido pelos estancieiros da época atual com essa "bandeira preta de cor vermelha" que pode custar ainda mais vidas.
Que a História e o tribunal das redes façam seus julgamentos.
Confira a live na íntegra e acesse o novo decreto municipal:
Confira aqui a atualização do decreto de calamidade (021/2021) em Viamão.






