Choque de Cristianismos: por que a Europa não consegue entender a Rússia

“Europeus ocidentais vêem os cristãos ortodoxos como sátrapas e um bando de contrabandistas, enquanto os ortodoxos consideram os cruzados como usurpadores”. O DV reproduz o artigo de Pepe Escobar, publicado no The Cradle e Brasil 247

Sob uma atmosfera onipresente e tóxica de dissonância cognitiva encharcada de russofobia, é absolutamente impossível se ter uma discussão significativa sobre pontos mais sutis da história e cultura russas em todo o espaço da OTAN – um fenômeno que estou vivenciado agora em Paris, recém-saído de um longo passagem em Istambul.

Na melhor das hipóteses, aparentemente em um diálogo civilizado, a Rússia é rotulada na visão reducionista de um império ameaçador, irracional e em constante expansão – uma versão muito mais perversa da Roma Antiga, da Pérsia Aquemênida, da Turquia Otomana ou da Índia Mughal.

A queda da URSS há pouco mais de três décadas fez a Rússia retroceder três séculos – às suas fronteiras no século XVII. Historicamente, a Rússia foi interpretada como sendo um império secular – imenso, múltiplo e multinacional. Tudo isso é informado pela história, muito viva até hoje no inconsciente coletivo russo.

Quando a Operação Z começou, eu estava em Istambul – a Segunda Roma. Passei um tempo considerável de minhas caminhadas noturnas pela Hagia Sophia refletindo sobre as correlações históricas da Segunda Roma com a Terceira Roma – que por acaso é Moscou, já que o conceito foi anunciado pela primeira vez no início do século XVI.

Mais tarde, de volta a Paris, o banimento para o território do solilóquio parecia inevitável até que um acadêmico me indicou alguma substância, embora fortemente distorcida pelo politicamente correto, disponível na revista francesa ‘Historia‘(https://historia.fr/)

Pelo menos, há uma tentativa de discutir a Terceira Roma. O significado do conceito foi inicialmente religioso, antes de se tornar político – encapsulando o impulso russo de se tornar o líder do mundo ortodoxo, em contraste com o catolicismo. Isso deve ser entendido também no contexto das teorias pan-eslavas que surgiram sob os primeiros Romanov e depois atingiram seu apogeu no século XIX.

O eurasianismo – e suas diversas declinações – trata a complexa identidade russa como uma dupla face entre o oriente e o ocidente. As democracias liberais ocidentais simplesmente não conseguem entender que essas ideias – infundindo variadas marcas do nacionalismo russo – não implicam em hostilidade à Europa “iluminada”, mas como uma afirmação da Diferença (eles poderiam aprender um pouco lendo mais Gilles Deleuze sobre esse assunto). O eurasianismo também pesa nas relações mais estreitas com a Ásia Central e nas alianças necessárias, em vários graus, com a China e a Turquia.

Um ocidente liberal perplexo permanece refém de um vórtice de imagens russas que não consegue decodificar adequadamente – da águia de duas cabeças, que é o símbolo do estado russo desde Pedro, o Grande, às catedrais do Kremlin, a cidadela de São Petersburgo , o Exército Vermelho entrando em Berlim em 1945, os desfiles de 9 de maio (o próximo será particularmente significativo) e figuras históricas de Ivan, o Terrível, a Pedro, o Grande. Na melhor das hipóteses – e estamos falando de ‘especialistas’ de nível acadêmico – eles identificam todos os itens acima como imagens “extravagantes e confusas”.

A divisão cristã/ortodoxa

O próprio Ocidente liberal aparentemente monolítico também não pode ser entendido se esquecermos como, historicamente, a Europa também é uma besta de duas cabeças: uma cabeça pode ser rastreada desde Carlos Magno até a terrível máquina eurocrata de Bruxelas; e a outra vem de Atenas e Roma e, via Bizâncio/Constantinopla (a Segunda Roma), chega até Moscou (a Terceira Roma).

A Europa latina, para os ortodoxos, é vista como um usurpador híbrido, pregando um cristianismo distorcido que só se refere a Santo Agostinho, praticando ritos absurdos e negligenciando o importantíssimo Espírito Santo. A Europa dos papas cristãos inventou o que é considerado uma hidra histórica – Bizâncio – onde os bizantinos eram na verdade gregos que viviam sob o Império Romano.

Os europeus ocidentais, por sua vez, vêem os ortodoxos e os cristãos do Oriente (veja como foram abandonados pelo Ocidente na Síria sob o ISIS e a Al Qaeda) como sátrapas e um bando de contrabandistas – enquanto os ortodoxos consideram os cruzados, os chevaliers teutônicos e os jesuítas – corretamente, devemos dizer – como usurpadores bárbaros empenhados na conquista do mundo.

No cânone ortodoxo, um grande trauma é a quarta Cruzada em 1204, que destruiu totalmente Constantinopla. Os cavaleiros francos chegaram a eviscerar a metrópole mais deslumbrante do mundo, que reunia na época todas as riquezas da Ásia.

Essa foi a definição de genocídio cultural. Os francos também estavam alinhados com alguns notórios saqueadores em série: os venezianos. Não é à toa que, a partir dessa conjuntura histórica, nasceu um slogan: “Melhor o turbante do sultão do que a tiara do papa”.

Assim, desde o século VIII, a Europa carolíngia e bizantina estava de fato em guerra através de uma Cortina de Ferro do Báltico ao Mediterrâneo (compare-a com a emergente Nova Cortina de Ferro da Guerra Fria 2.0). Após as invasões bárbaras, não falavam a mesma língua nem praticavam a mesma escrita, ritos ou teologia.

Essa fratura, significativamente, também invadiu Kiev. O ocidente era católico – 15% dos católicos gregos e 3% dos latinos – e no centro e no oriente, 70% ortodoxos, que se tornaram hegemônicos no século XX após a eliminação das minorias judaicas principalmente pelas Waffen-SS da divisão Galiza – os precursores do batalhão Azov da Ucrânia.

Constantinopla, mesmo em declínio, conseguiu realizar um sofisticado jogo geoestratégico para seduzir os eslavos, apostando na Moscóvia contra o combo católico polonês-lituano. A queda de Constantinopla em 1453 permitiu que Moscóvia denunciasse a traição de gregos e armênios bizantinos que se uniram ao papa romano, que queria muito um cristianismo reunificado.

Depois, a Rússia acaba por se constituir como a única nação ortodoxa que não caiu sob o domínio otomano. Moscou se considera – assim como Bizâncio – como uma sinfonia única entre poderes espirituais e temporais.

A Terceira Roma torna-se um conceito político apenas no século 19 – depois que Pedro, o Grande e Catarina, a Grande, expandiram amplamente o poder russo. Os conceitos-chave de Rússia, Império e Ortodoxia são fundidos. Isso sempre implica que a Rússia precisa de um ‘exterior próximo’ – e isso tem semelhanças com a visão do presidente russo Vladimir Putin (que, significativamente, não é imperial, mas cultural).

Como o vasto espaço russo está em constante fluxo há séculos, isso também implica no papel central do conceito de um cerco. Cada russo está muito ciente da vulnerabilidade territorial (lembre-se, para começar, Napoleão e Hitler). Uma vez que a fronteira ocidental é invadida, é uma viagem fácil até Moscou. Assim, esta linha muito instável deve ser protegida; a correlação atual é a ameaça real da Ucrânia, feita para sediar bases da OTAN.

Avante, para Odessa

Com a queda da URSS, a Rússia se viu em uma situação geopolítica encontrada pela última vez no século XVII. A lenta e dolorosa reconstrução foi liderada por duas frentes: a KGB – mais tarde FSB – e a Igreja Ortodoxa. A interação de mais alto nível entre o clero ortodoxo e o Kremlin foi conduzida pelo Patriarca Kirill – que mais tarde se tornou o ministro de assuntos religiosos de Putin.

A Ucrânia, por sua vez, havia se tornado um protetorado de fato de Moscou em 1654 sob o Tratado de Pereyaslav: muito mais do que uma aliança estratégica, era uma fusão natural, em andamento há séculos por duas nações eslavas ortodoxas.

A Ucrânia então cai sob a órbita russa. A dominação russa se expande até 1764, quando o último hetman ucraniano (comandante-em-chefe) é oficialmente deposto por Catarina, a Grande: é quando a Ucrânia se torna uma província do império russo.

Como Putin deixou bem claro esta semana: “A Rússia não pode permitir a criação de territórios anti-russos em volta do país”. A Operação Z inevitavelmente abrangerá Odessa, fundada em 1794 por Catarina, a Grande.

Os russos da época acabavam de expulsar os otomanos do noroeste do mar Negro, que havia sido sucessivamente governado por godos, búlgaros, húngaros e depois turcos – até os tártaros. No início, Odessa foi povoada, acredite ou não, por romenos que foram encorajados a se estabelecer lá depois do século XVI pelos sultões otomanos.

Catarina escolheu um nome grego para a cidade – que no início não era nada eslava. E assim como São Petersburgo, fundada um século antes por Pedro, o Grande, Odessa nunca deixou de flertar com o Ocidente.

No início do século 19, o czar Alexandre I decide transformar Odessa em um grande porto comercial – desenvolvido por um francês, o Duque de Richelieu. Foi a partir do porto de Odessa que o trigo ucraniano começou a chegar à Europa. Na virada do século 20, Odessa é verdadeiramente multinacional – depois de ter atraído, entre outros, o gênio de Pushkin.

Odessa não é ucraniana: é uma parte intrínseca da alma russa. E, dentro em breve, as provações e tribulações da história assim o farão novamente: como uma república independente; como parte de uma confederação da Novorossiya; ou ligada à Federação Russa. O povo de Odessa decidirá.

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