Coluna do Gustavo – O coronavírus e o Frankenstein

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Estou lendo Frankenstein, escrito por Mary Shelley aos 19 anos, em 1817. A primeira revelação impressionante para mim foi perceber o quanto o clássico foi alterado em narrativas atualizadas durante dois séculos. Esperei com bastante ansiedade o momento em que, durante uma tempestade, um raio daria vida ao monstro e seria exclamado "está vivo!", mas nada disso acontece no romance.

Apesar de eu ter conhecimento sobre Frankenstein ser o sobrenome do criador e não o nome da criatura, sempre chamado de "demônio" ou "desgraçado", todo o resto era novidade para mim. Ele não era verde e sim amarelo. Também não tinha aquele caminhar de zumbi com os braços estendidos para frente. Na verdade sua estatura avantajada permitia que tivesse maior destreza e coordenação. E o mais surpreendente, desconstruindo toda a imagem que eu tinha de um monstro lerdo com parafusos no pescoço, o ser era dotado de uma dicção e capacidade de argumentação perfeitos.

Mas o que isso tem a ver com o coronavírus? O confinamento.

A escritora teve inspiração para a obra enquanto enfrentava um isolamento forçado e o resultado foi a confecção de uma análise de questões muito humanas desenvolvidas no livro. Durante o período em que esteve privada de experienciar o mundo exterior, Mary Shelley olhou para dentro de si e viu preconceito, busca pela amizade verdadeira, injustiça, amor incondicional e desejo de vingança. Aprofundou a relação de criador e criatura, ciência e tecnologia, explorando nosso conceito de religião e do poder exercido sobre a natureza. Apesar de escrito há séculos, os temas seguem atuais porque se relacionam com o nosso íntimo.

Estamos vivenciando um momento histórico inédito na Terra, porque mesmo isolados, todos os seres humanos, de todas as cidade e países, estão, pela primeira vez, unidos contra uma única causa. E além disso, todos estão sendo afetados por ela, cada um com seu prejuízo, maior ou menor, mas ninguém está excluído de sentir seu reflexo. Diante desta crise, existe a oportunidade de, em nossa reclusão, olharmos para a sociedade e extrairmos da sua análise atual um Frankenstein moderno, que fale com a gente no nível da nossa humanidade.

Mas ao contrário da obra escrita no século dezenove, a qual precisou de duzentos anos para ter versões alteradas tão populares quanto a original, a velocidade com que compartilhamos informações hoje permite alterações da versão inicial de uma história de forma imediata, possibilitando as notícias falsas se espalharem apenas para prejudicar quem as alcança. Só existem resultados negativos se agirmos assim. As atitudes que tomarmos agora determinarão o que obteremos ao final desta situação. Nós decidiremos se sairemos dessa com um entendimento maior de nós mesmos e do mundo onde vivemos ou com um monstro.

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