Coluna do Gustavo: Variação habitual

Quem me conhece sabe que sou uma pessoa de hábitos. Já quem me conhece muito bem, sabe que adoro a alternância. Pode parecer contraditório, mas apesar de ter certas manias as quais carregarei para o túmulo, eu gosto muito da variação. Por exemplo, quando ainda podíamos frequentar ambientes com mais pessoas, perto do escritório onde trabalhava havia quatro ou cinco opções de restaurantes e frequentei algumas vezes cada um. Depois de decidir qual me agradava mais, almocei todos os dias no mesmo. Sem nenhuma saudade dos outros.

Mas o motivo pelo qual fazia as refeições sempre no mesmo lugar era exatamente porque o cardápio ali tinha a maior variedade. Ou seja, mesmo sendo um homem de hábitos, gosto muito de variar. Adoro a alternância. Não sou do tipo que passa o verão reclamando do calor e o inverno reclamando do frio. Depois de desfrutar do mais rigoroso inverno tomando sopa, desfilando com o cachecol que minha avó tricotou para mim e – quando bem acompanhado – bebendo vinho; aprecio todas as qualidades do mais escaldante verão, me refrescando em banhos de mar, aproveitando as noites agradáveis na rua e – quando em boa companhia – sorvendo chopes gelados e cremosos.

Aliás, um hábito que tento evitar ao máximo é o de reclamar. Me desagrada o convívio com pessoas que reclamam de todo dia ser igual e depois de sempre terem alguma coisa nova para resolver. Gosto do igual e também do novo. É bom isso. Sinto que sou uma pessoa mais feliz aceitando que tudo muda, afinal a única constância é a mudança. Algumas são controladas por nós mesmos, mas outras não temos qualquer ingerência. Posso facilmente escolher o esporte que vou praticar: correr, andar de skate, jogar futebol. Mas não posso mudar o fato de precisar fazer a mesma série de aquecimento antes de praticá-los por causa da idade dos meus joelhos.

Esta pandemia, como a temperatura ou minhas cartilagens, estão fora do nosso alcance de escolha. O confinamento nos deixou em um novo estado. Uma condição nova que ninguém esperava e muito menos estava preparado. E para piorar, depois de bagunçar a vida de todos, agora faz os dias passarem e se repetirem e nada muda e segue tudo igual o tempo todo. Fomos forçados a uma nova situação. Nos foi trazido algo novo, uma nova realidade. E essa nova realidade também já se tornou velha. Este período que vivemos já durou tempo suficiente. Veio e está na hora de ir.

Contudo, não foi. Ainda está aí.

Portanto, já que não adianta querer mudar o que não consigo, vou continuar fazendo o que posso. Sigo cultivando meus hábitos. O de tomar café assim que acordo, não vou perder nesta vida.  Pode ser verão ou inverno, com confinamento ou sem. Como eu disse, sou de hábitos. Como eu disse também, adoro a alternância. Por enquanto, tento apreciar o que está igual, mas mal posso esperar pela próxima mudança. E não estou falando das estações do ano.

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