Neste sábado pela manhã começa a funcionar o hospital de campanha montado pelo Exército junto a UPA. O Diário de Viamão conversou nesta tarde, com exclusividade, com a secretária Michele Galvão
A culpa é do lixo.
Se Viamão lidera o ranking entre todos os municípios do Rio Grande do Sul como o que mais tem casos de dengue confirmados – 1.410 nesta sexta-feira, 4 de abril – a culpa é de uma conjugação de fatores que envolvem apenas um elemento: o lixo. Em entrevista exclusiva que concedeu na tarde de hoje à reportagem do Diário de Viamão junto ao hospital de campanha que começa a funcionar neste sábado, 5 de abril, atrás da UPA 24 Horas, a secretária municipal da Saúde, Michele Galvão, explicou como o município chegou nesta condição.
Ela lembrou que no final do governo passado, do ex-prefeito Nilton Magalhães, o município ficou por cerca de 60 dias com muitos locais sem coleta, ou com recolhimento precário de lixo. “No começo de janeiro o Rafael (Bortoletti, prefeito atual) assumiu e já tratou de resolver o problema e normalizar a coleta, mobilizando toda a máquina pública neste sentido. Só que no meio do mês, dia 15 ou 20, por aí, aconteceu uma chuvarada, e em seguida aconteceram dias extremamente quentes. Ou seja, tudo que o mosquito precisa para se reproduzir, lixo com pontos de água parada e calor, o cenário ideal”, disse Michele.
Outro problema é a falta de conscientização das pessoas que fazem o descarte irregular de lixo. A Secretaria Municipal de Obras e Serviços Públicos está atuando para acabar com estes lixões irregulares e, em cerca de um mês, mais de 130 caçambas já foram recolhidas. “As pessoas precisam ter consciência que isso colabora para a proliferação do mosquito transmissor da doença”, disse a secretária, referindo-se ao Aedes aegypty. “Para que a gente possa reverter este quadro, é preciso passar por uma reeducação da comunidade, até porque a dengue não se concentra mais só na região da Augusta, Jari e Cecília, mas se espalha por toda a cidade”, afirmou.
Atendimento
Para dar suporte às pessoas contaminadas ou com sintomas da doença, neste sábado às 8h começa a funcionar o hospital de campanha montado pelo Exército Brasileiro junto à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) 24 Horas. O local tem capacidade para receber até 30 pacientes simultaneamente, para realização de hidratação, intravenosa ou não. Na tarde desta sexta equipes da Secretaria Municipal da Saúde se reuniram com representantes da Força Nacional do SUS, enviadas pelo Ministério da Saúde a Viamão, quando ajustaram os procedimentos e o fluxo de pacientes entre a UPA 24 Horas e o hospital de campanha do Exército.
“Fizemos um mapeamento do fluxo desde as unidades de saúde com o pessoal da Fiorça Nacional. Estivemos na quinta-feira na Augusta Meneguine, em Águas Claras, e na aldeia indígena, e hoje (sexta) pela manhã fomos ao Hospital Viamão e, na parte da tarde, na UPA”, contou a secretária Michele. O município ainda recebeu o reforço de áreas técnicas do Ministério da Saúde. “Vieram a Viamão pelo menos 10 pessoas da Secretaria de Vigilância, Secretaria da Atenção Primária em Saúde, Departamento de Emergência em Saúde Pública, Comitê de Operações Especiais de Arboviroses e a Secretaria Especial de Saúde Indígena”, contou ela. A mobilização ainda envolve, da Secretaria Municipal da Saúde de Viamão, 15 técnicos que atuam na frente assistencial.
A secretária municipal explicou que o atendimento às pessoas com suspeita de dengue está sendo realizado em todas as unidades de saúde do município e que o pronto atendimento funciona na Augusta Meneguine e Santa Isabel, que vão estar funcionando neste sábado (dia 5), das 8h às 18h. E no domingo, na Augusta Meneguine, das 8h às 18h, só para tender casos suspeitos da doença. “E os pacientes que procurarem a UPA ainda podem contar com este espaço que foi criado, o hospital de campanha, para ampliar a nossa capacidade de atendimento. Um paciente que precisa de monitoramento do hemograma de duas em duas horas, porque tem um grau de gravidade mais elevado, virá aqui para esta estrutura”, disse ela.

Para saber
Para atuar no hospital de campanha a Prefeitura de Viamão fez a contratação de três plantonistas médicos, além de oito enfermeiros mais técnicos de enfermagem, auxiliares de limpeza. Os contratos têm validade inicial de 60 dias
Em campo
Um total de 30 militares do Exército, com 100 agentes comunitários de saúde e outros 50 agentes de endemias estão, literalmente, “varrendo o território” onde a situação é mais crítica. Eles estão realizando a remoção mecânica de pontos de água parada e de pontos de descarte de lixo, orientando as pessoas sobre cuidados e prevenção, além da aplicação de inseticida com máquina costal e com um veículo adaptado e cedido pela Secretaria Estadual da Saúde e a aplicação de inseticida no interior das casas, a chamada borrifação residual intradomiciliar.
Uma pergunta
Diário de Viamão: A situação pode evoluir para Estado de Calamidade Pública em Saúde?
Secretária Michele Galvão, da Saúde: “Eu espero que não. Com a vinda da Força Nacional do Sul e do pessoal do Ministério da Saúde, todas as medidas necessárias para que a gente não perca vidas e possamos controlar esta situação, estão sendo tomadas. E na segunda-feira (dia 7) vêm mais equipes do governo federal, especialistas em Vigilância Ambiental e de combate ao vetor (o mosquito Aedes aegypti)”.
Os números
Em Viamão
- 2.681 notificações
- 1.410 casos confirmados
- 849 casos em investigação
- 2 casos inconclusivos
- 420 casos descartados
- 1.357 dos confirmados, autóctones (adquiridos no território do município)
No Rio Grande do Sul
- 24.645 notificações
- 4.703 casos confirmados
- 11.965 casos em investigação
- 696 casos inconclusivos
- 7.281 casos descartados
- 4.159 dos confirmados, autóctones (adquiridos no território do estado)
Atenção
Rio Grande do Sul registra terceira morte por dengue e primeira por chikungunya em 2025
- O Centro Estadual de Vigilância em Saúde (CEVS), vinculado à Secretaria Estadual da Saúde (SES), confirmou nesta sexta-feira o terceiro óbito por dengue no estado.
- Ocorrido em 25 de março, o caso é de um homem de 79 anos com comorbidades e morador de Alvorada.
- A segunda morte por dengue confirmada havia sido de uma idosa de Cachoeira do Sul, de 83 anos e com comorbidades.
- O primeiro registro de óbito tinha sido de uma mulher de Porto Alegre, de 59 anos e também com comorbidades. Também foi confirmada, nesta sexta, em Carazinho, a morte de um homem de 68 anos com comorbidades, por chikungunya. É o primeiro registro desse tipo em toda a série histórica.



