Erika Goelzer | Pedofilia é crime!

O assunto de hoje é polêmico, e não poderia não ser. Como psicóloga não consigo pensar em escrever algo que não seja sobre a menina de 10 anos, grávida, vítima de violência sexual. A violência sexual às crianças é uma triste realidade. Digo “às crianças” porque a violência não está restrita ao sexo feminino, meninos também sofrem abuso.

Nenhuma criança deveria ter sua infância interrompida por algum tipo de violência sexual. A violência a um incapaz dá ainda mais realces de crueldade a uma prática hedionda. Subjugar e se impor por uma posição hierarquicamente superior, se valer da confiança infantil para cometer esta atrocidade tem o poder de destruir subjetivamente uma vida que deveria estar sendo protegida, cuidada. Pedofilia não é doença. Pedofilia é crime. O corpo de uma criança, seja qual for a idade, não é um corpo sexual. Desejar este corpo é monstruoso.

A história da menina capixaba foi ainda mais trágica. Os estupros produziram uma gestação. Só por isso, essa tragédia chegou ao nosso conhecimento. Milhares de meninas e meninos são violentados com e sem penetração todos os dias (a violência sexual não prescinde de penetração para se caracterizar). E todos os dias seguimos nossas vidas sem pensar nessas crianças e fingindo que não é um problema nosso. Mas é! É um problema meu. É um problema seu também. A sociedade está adoecida. Quando a dor do outro não é capaz de provocar compaixão, algo de muito errado está acontecendo. 

Precisamos cuidar das nossas crianças. Precisamos parar com discursos religiosos hipócritas e fornecer as crianças e adolescentes compreensão e coragem para se proteger e denunciar as violências que sofrem ou que sabem. Precisamos que educação sexual seja trabalhado nas famílias e nas escolas desde cedo e desde sempre.

Prevendo a pergunta que pode surgir, já respondo: “A educação sexual não estimula a promiscuidade ou a sexualidade precoce. Muito pelo contrário! É só através da educação que crianças e jovens podem dar a devida importância para o próprio corpo.” Já se sabe que é justamente aonde não há educação sexual que ocorrem mais casos de iniciação precoce da vida sexual e gestações na adolescência. Nosso corpo é inviolável. E quem deve garantir o cumprimento desta regra é justamente o adulto. É o adulto que precisa olhar para a criança como cuidador.

A menina capixaba nunca mais será a mesma. A infância e sua magia lhe foram covardemente roubados aos seis anos, quando os abusos começaram. A família falhou. A sociedade falhou. A denúncia deveria devolver um pouco de paz, deveria trazer compreensão e cuidado. Não foi assim: o hospital lhe negou o aborto, seu nome foi exposto nas redes sociais, pessoas rezavam e gritavam para que ela não abortasse. Mais uma vez a menina ficou em segundo plano. Primeiro foi usada como objeto sexual por adulto criminoso e, então, lhe foi pedido que negasse a própria natureza de criança, que negasse a própria natureza de seu corpo infantil e servisse de objeto para que uma outra criança (uma outra vítima) viesse ao mundo, vítima dessa violência.

Já não basta o sofrimento de uma criança? Uma menina com a vida marcada pela dor e pela violência já não é suficiente?

Ainda que eu seja a favor da legalização, não sou uma ativista pró-aborto. Mas neste caso não se tratava de ser contra ou a favor do aborto. Se trata de ser contra a violência: a violência sexual, a violência do desamparo, a violência que uma gestação produziria em um pequeno corpo com 10 anos de idade. Não era um aborto para ser questionado. Não era um aborto para ser noticiado. A necessidade e o direito a interromper a gestação já eram direitos da menina. Não podiam ter lhe sido negados.

Se você é contra a legalização do aborto por motivos religiosos ou outro qualquer, não se sinta ofendido. Eu realmente entendo a sua opinião. Mas esta opinião é para discutir casos de gestações adultas, fruto de relações consentidas. Nenhum argumento pode ser aplicado em casos de violência sexual e, ainda menos, quando a vítima desta violência é uma criança de 10 anos.

A ajuda veio de outro Estado. Foi preciso viajar e entrar escondida no hospital para ter um pouco da infância de volta. Diante de tanta comoção algumas pessoas tiveram a sensatez de dar fim ao sofrimento infantil. Pessoalmente, eu assinei uma petição online defendo o direito da menina ao aborto. Minha assinatura pode não ter valido muito no trâmite legal, mas junto com outras milhares de assinaturas ficarão marcadas como uma rede de proteção subjetiva a esta criança tão machucada. No futuro, cada vez que a vida acionar a dor dessas vivências tão traumáticas, haverá em algum lugar registrado que milhares de vozes anônimas gritaram em seu apoio. Haverá o registro contundente de assinaturas que confirmam que a monstruosidade estava do lado adulto. Seremos sempre vozes a repetir sua condição de vítima!

Neste caso, só há uma causa a ser defendida, só há uma bandeira a ser levantada: que o adulto ou os adultos responsáveis por essa violência sejam punidos. E que toda essa tristeza sirva de gatilho para olharmos mais para nossas crianças, para ensinarmos e abrirmos espaços para o diálogo e para denúncias. A omissão, neste caso, também é monstruosa.

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