Instigante sono

Aquele ar fresquinho entrando pela janela do quarto estava delicioso. Deitada com os olhos fechados começou a decifrar sons, vozes e sinais ao seu redor. A cama, estava em posição lateral à janela, fazendo a brisa da primavera entrar até em seus poros.

 Ao longe, ouviu o choro de uma criança. Cachorros latindo. Um deles, parecia mandar uma mensagem em código, para o outro. Esta comunicação dos cães, resumida em latidos, deve ter um significado. Ficaram assim, por pelo menos, meia hora. Au, au prá lá... au,au prá cá. Depois o pio de uma coruja. Que morava naquele mato a alguns meses. Ao longe, a efervescência da avenida. Com buzinas de carros e a sirene da ambulância. Que deveria estar correndo. Com aquela urgência que a caracteriza.

Ainda com os olhos fechados percebeu novos sentidos. Que vinham de sua rua, de seus vizinhos e de algum espaço no céu. Passarinhos em revoada e com sibilar conhecido, voavam por ali. Continuou captando sons e vozes. Estava acordada. Mas o mundo da percepção envolvia todo seu ser . Mostrado agora,sob o ângulo da audição.Tudo era intenso.

O vento na janela balançava as cortinas. Que iam e vinham num barulho ameno. Quase mágico. Ao longe uma campainha toca. Não pode entender quem atendeu a porta. Era do andar de cima. O prédio em que morava, era pequeno. No edifício ainda, um telefone tocava. Escandalosamente. Deveria ser urgente, pois era insistente. Ninguém atendia. Não deveria ter ninguém em casa.

Seus olhos ainda fechados, estimulavam o sono. Ou a sesta. E... sonhar é sempre preciso. Principalmente depois do almoço. Adormeceu, em meio às observações auditivas. 

Sonhou que caminhava descalça numa praia deserta. Sem medo das imensas ondas que percorriam a paisagem. E que delicadamente envolviam seus pés. Sem saber se a cena  era real ou imaginária, continuou assim. Como numa sessão de regressão ou hipnotismo.  

Em seu quarto agora, entrava uma grande ventania. Pulou da cama. Fechou as janelas.  Rezou para Santa Bárbara abrandar a tempestade. Ao longe,  grandes ruídos. Eram trovões, riscando atrevidamente todas as nuvens.

 

 

 

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